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O século XXI será do socialismo:
Introdução à edição brasileira de "Marxismo no mundo de hoje"

por Peter Taafe

Este texto foi escrito para a tradução do livro "Marxismo no mundo de hoje: Respostas sobre a guerra, o capitalismo e o meio ambiente". Para adquirir o livro entre em contato com a Liberdade, Socialismo e Revolução: lsr@lsr-cit.org ou (11) 3104-1152.

A publicação de “Marxismo no mundo de hoje” em português ajudará, esperamos, no avanço da luta pelo socialismo, especialmente no Brasil, mas também em Portugal. Desde a sua primeira edição, em novembro de 2006, quando foi publicado em inglês e italiano, ele já foi lançado na Índia, onde se espera que também será traduzido para a língua tamil, no Paquistão em Urdu e para o alemão. Ter uma versão deste livro, especialmente, na América Latina marca um significativo passo à frente para o Comitê por uma Internacional Operária (CIO) e para nossos camaradas brasileiros.

Para os socialistas e marxistas, a América Latina é o continente mais avançado politicamente no mundo atualmente. Também é uma antecipação do que acontecerá no resto do mundo amanhã. Do Rio Grande à Tierra del Fuego, a classe trabalhadora, os pobres urbanos e o campesinato pobre estão em revolta contra o latifúndio, o capitalismo e o imperialismo. Isto encontra sua mais aguda expressão na Venezuela, na Bolívia e no Equador. Mas os mesmos ingredientes sociais explosivos que existem nestes países e que empurraram seus governos para a esquerda existem, em um grau ou outro, em praticamente todos os países da América Central e do Sul.

Crescimento da economia... e da pobreza

“Mas o continente está experimentando um acelerado crescimento”, respondem os profetas do neoliberalismo, como a revista The Economist de Londres. É verdade, a América Latina, comparada ao período anterior, tem uma taxa de crescimento médio anual de 5% desde 2004. Mas este crescimento começou de uma base bastante baixa, foi em grande parte abastecido pelo boom mundial no setor de commoditiesI e alimentos às custas da indústria e ignorando os milhões ainda atolados em uma pobreza desesperadora. Isto é exemplificado por países como o Chile, com 6% de crescimento, em grande parte devido à alta dos preços mundiais de cobre, e que, ao mesmo tempo, sofreu uma crise energética por causa da redução da exportação de energia da Argentina, que também sofre com escassez de energia. A posição no Brasil é ainda mais gritante, já que o país é agora o maior exportador de carne e soja no mundo. O Brasil possui uma florescente indústria de agro-combustíveis, mas tudo isto foi acompanhado de uma significativa desindustrialização.

E este crescimento muito elogiado não desestimulou o movimento das massas, mas ao contrário, o intensificou. No Chile, massivos protestos de rua contra a pobreza e o neoliberalismo mobilizaram uma nova geração, pondo um fim à sombra do longo pesadelo do regime de Pinochet. Enormes greves e protestos convulsionaram o Peru, enquanto o Equador ameaça não pagar sua dívida nociva. O uso do dólar como moeda do Equador intensificou a crise, por causa da recente queda do valor do dólar nos mercados mundiais. Ocorreram manifestações de massas no México por causa do aumento do preço do milho, enquanto na Venezuela e na Bolívia há um desafio direto e crescente ao capitalismo e ao imperialismo.

A massa da população da América Latina instintivamente entende que o crescimento recente é frágil. A Argentina, por exemplo, é louvada nos jornais capitalistas por causa de seu alegado crescimento de 33%, nos últimos cinco anos. Mas apenas alguns anos atrás (2001-02), a maioria dos argentinos caiu drasticamente abaixo da linha da pobreza. Milhares de membros da classe média se mudaram para favelas, enquanto outros competiram por vistos nas embaixadas da Espanha, Itália e outros países, para fugir do país. Depois de 1980, no Brasil, “sete milhões de pessoas deixaram de ser da classe média” (The Economist). Significativamente, esta revista deu o alerta: “Muitos daqueles que cavaram sua saída da pobreza podem ser derrubados novamente, se houver uma repetição dos colapsos financeiros que a região sofreu nos anos 80 e 90”.

"BRICs" não pode evitar a crise econômica mundial

Isto foi escrito no mês de agosto, quando uma crise financeira estava a caminho nos EUA e começava a repercutir por todo o mundo. A crise no mercado de hipotecas ‘sub-primeII’ dos EUA – onde empréstimos de financiamento habitacional eram distribuídos como confetes para os pobres que não tinham esperança de pagá-los – é sintomática do boom mundial no último período. Ele se baseava em um mar de dívidas de consumo e, além disso, resultou em 200 bilhões de dólares de dívidas sub-prime divididas em parcelas e distribuídas pelos chamados “instrumentos financeiros”. Ninguém – nem mesmo os experts sempre engajados no planejamento de engenhosos produtos financeiros – sabem exatamente onde elas estão. Como uma força natural incontrolável, esta bomba financeira escondida ameaça uma crise bancária maior e ajudou a derrubar um hedge fundIII após o outro nos EUA, na Alemanha, na França e, mais dramaticamente, no quase colapso do banco britânico Northern Rock. Este banco estava tão inseguro que os mercados de crédito se recusaram a lhe fazer empréstimos e resgatá-lo. A conseqüência foi que a Grã-Bretanha se tornou a Argentina por alguns dias em setembro de 2007. Filas de pessoas em pânico se formaram do lado de fora dos bancos, com os depositantes exigindo seu dinheiro de volta. Contudo, diferentemente da Argentina, eles não foram sacrificados pela política do banco, porque o governo interferiu e efetivamente “nacionalizou” – assumindo os depósitos dos pequenos correntistas, salvando assim o Northern Rock e com ele o sistema bancário na Grã-Bretanha.

Estes eventos revelam o caráter cego e caótico do capitalismo, mesmo em seus bastiões no mundo industrializado. O velho adágio de que quando os países industrializados avançados – especialmente os EUA – pegam um resfriado, o mundo neocolonial sofre de pneumonia, ainda é verdade. Isto por causa do ainda dominante poder econômico dos EUA. Os economistas capitalistas pensam que isto pode ser revertido pelos ‘BRICs’ – as enormes economias em desenvolvimento do Brasil, da Rússia, da Índia e da China – ocupando o “espaço vago” do inevitável declínio do consumo nos EUA devido ao seu colapso nos preços de imóveis. Esta é a principal alavanca para o atual boom econômico e que agora chegou a um impasse. Trata-se de uma quimera, porque os ‘BRICs’ são totalmente dependentes do contínuo crescimento do mercado mundial, especialmente dos EUA. Brasil e Rússia, juntos com o Chile (crescimento nas exportações de commodities), a Índia, através do setor de serviços, e a China, estão presos com aros de ferro à economia americana. O preço a ser pago em uma recessão econômica, tal como em todas as etapas do capitalismo, virá através de ataques às precárias condições de vida das massas trabalhadoras da América Latina. Um milhão de trabalhadores já perderam suas casas nos EUA e entre dois e três milhões estão para se juntar a eles. O corte nas taxas de juros dos EUA, que provavelmente será seguido por outros países capitalistas no próximo período, não oferece uma solução de longo prazo. Ele impulsionará a inflação, o que por sua vez levará à aumentos de preços dos itens básicos e a crescentes demandas por aumentos salariais para compensar isso. Ao mesmo tempo, isto também significará um maior colapso no valor do dólar. A atual crise financeira poderia, portanto, ser substituída por uma crise do dólar, ou poderemos ver características de ambos.

Chávez e Trotsky

Isto despedaçará as róseas perspectivas econômicas dos adivinhos do capitalismo, dentre os quais, hoje se inclui o presidente Lula do Brasil. As massas latino-americanas experimentaram a década perdida dos anos 80, depois as privatizações em massa dos anos 90, que agora resultaram em uma resposta social, mais visivelmente na Venezuela, na Bolívia e, em alguma extensão, no Equador. O mesmo processo ocorrerá em muitos outros países do continente no próximo período. A chegada ao poder de Hugo Chávez nove anos atrás e suas promessas de tirar as massas venezuelanas da pobreza provocaram o medo mórbido e a oposição amarga do capitalismo venezuelano e de seus aliados internacionais, especialmente nos EUA. Começando com a missão de ‘humanizar’ o capitalismo, Hugo Chávez foi impelido a proclamar a necessidade do socialismo no século XXI e, ultimamente, parece ter abraçado não apenas o marxismo, mas também Trotsky e suas idéias. A teoria da ‘revolução permanente’ – que explicamos à exaustão neste livro em relação ao mundo neocolonial como um todo – recebeu uma saudação especial de Chávez, assim como a brochura de Trotsky, “Programa de Transição – A agonia do Capitalismo e as tarefas da IV Internacional”.

Em abril, ele declarou em seu programa de TV: “Eu não me qualificaria como um trotskista, embora tenha a tendência [de ser um], pois tenho muito respeito pelas idéias de Trotsky e cada vez eu as respeito mais e as entendo melhor. A revolução permanente, por exemplo, é uma tese importante. É preciso aprender e estudar ela. Aqui nada foi aprendido para sempre. O livreto de Leon Trotsky, que alguém trouxe para mim, eu estava lendo esta manhã e era sobre o programa de transição. Ele tem apenas 30 ou 40 páginas, mas vale seu peso em ouro. Ele é um pensador esclarecedor, Leon Trotsky”.

É um grande mérito de Hugo Chávez que não tenha recuado quando enfrentou a reação. Ele e seus apoiadores giraram à esquerda sob as ameaças e golpes da direita, que levaram à tentativa de golpe que tentou removê-lo em 2002. Ao invés do desprezo, da calúnia e da deturpação das idéias de Trotsky tanto por parte da burguesia quanto dos stalinistas, Chávez agora deu uma certa legitimidade à elas. Mas embora isto seja bem vindo, a história infelizmente está cheia de exemplos de pessoas, figuras e movimentos que afirmavam, com sinceridade, serem “marxistas” – algumas vezes podiam até citar precisamente ao pé da letra as idéias de Marx – enquanto, ao mesmo tempo, diluíam ou ignoravam totalmente o método e o espírito do marxismo. O próprio Marx disse que a teoria é um “guia para a ação”. Isto fica demonstrado acima de tudo nas agudas transformações na vida das sociedades, ou seja, nas revoluções.

Algumas características de um processo revolucionário têm existido na Venezuela por algum tempo. Empurrado à esquerda, instigado a fazer importantes declarações radicais, a tomar ações concretas para reformar as vidas dos trabalhadores e camponeses; tudo isto Hugo Chávez fez. Isto, sem dúvida, ajudou a minar, senão romper, com o “Consenso de Washington” das políticas neoliberais de privatização, cortes de salários, de serviços sociais, etc. Chávez tem sido uma fonte de inspiração e esperança para as massas não apenas na América Latina, mas em todo o mundo neocolonial, mantidas na lama pelo capitalismo. Mas a ameaça de uma contra-revolução burguesa explícita ainda não foi vencida na Venezuela.

Em seu magnífico documentário sobre a América Latina e a reação, “The War on Democracy”, John Pilger, ao mesmo tempo em que revela simpatia, confronta Hugo Chávez com o fato de que os ricos na Venezuela ainda são uma força considerável; de fato, muitos estão melhor do que antes, retendo grandes benefícios do boom do petróleo venezuelano. John Pilger, mais tarde, afirmou ao The Guardian de Londres que: “Mesmo a descrição dele [Chávez] como um ‘socialista radical’, normalmente em um sentido pejorativo, ignora intencionalmente o fato de que ele é um nacionalista e um social-democrata, um rótulo que muitos no Partido Trabalhista britânico outrora se orgulhavam de usar”. Nesta etapa, esta é uma descrição precisa, apesar da fraseologia radical, da realidade da Venezuela e do governo de Hugo Chávez. Embora haja muitas proclamações sobre a necessidade do socialismo, ainda não houve uma ruptura decisiva com o capitalismo, não mais – na realidade ainda menos – do que foi o caso no Chile de Allende em 1973. Um chileno, que sofreu tortursa nas mãos da ditadura de Pinochet, afirma no filme de Pilger: “É como se Chávez fosse Allende, isso é muito lembrado por mim”. Allende nacionalizou, sob a pressão das massas, 40% da indústria. Isto não impediu a sangrenta derrubada de Allende e a longa escuridão da ditadura subseqüente.

Até a teoria da revolução permanente de Trotsky pode ser, e infelizmente é, interpretada de uma maneira não revolucionária, mas “reformista”. Trotsky percebeu que as tarefas da revolução democrático-burguesa seriam realizadas nos países subdesenvolvidos por meio de uma aliança entre a classe trabalhadora e o campesinato, com os primeiros, os trabalhadores, na direção. Isto significa que um governo dos trabalhadores e camponêses chegando ao poder, completaria a revolução democrático-burguesa e então passaria para as tarefas socialistas na arena nacional, mas também provocaria um movimento internacional, como foi o caso da Revolução Russa. A idéia de Trotsky não fazia concessões à percepção stalinista de “etapas”. Não se tratava de um programa “passo a passo” – com extensas pausas – de passagem das tarefas democrático-burguesas para as socialistas no futuro indefinido. Trotsky falava da combinação das tarefas democrático-burguesas com medidas socialistas. Em uma frase reveladora ele comentou: “A ditadura do proletariado (democracia dos trabalhadores) apareceu em cena não depois da finalização da revolução democrática (burguesa), mas como o pré-requisito necessário para sua realização”. Na Rússia, os bolcheviques chegaram ao poder nacionalizando a terra e as fábricas, mas deixaram por um período os capitalistas na supervisão das fábricas. Eles preferiam ter um período de controle dos trabalhadores, no qual as massas adquiririam as habilidades necessárias para dirigir a indústria elas mesmas. Porém, isto se deu no contexto em que a derrubada do latifúndio e do capitalismo ia sendo completada pela Revolução de Outubro de 1917. Tal experiência foi brutalmente interrompida pela guerra civil, quando os bolcheviques foram forçados a tomar os bancos e a indústria em 1918. As idéias da revolução permanente de modo algum podem se reconciliar com a abordagem reformista das etapas ou de seu equivalente, o corte e separação no tempo entre as diferentes “etapas” da revolução.

Infelizmente, a idéia da revolução permanente foi interpretada deste modo reformista por aqueles em torno de Chávez, tanto na Venezuela quanto por alguns dos “falsos amigos” internacionais que apenas aplaudem Chávez, aprofundando assim seus erros. Uma das grandes diferenças entre a Venezuela e a Revolução Cubana é que a última tinha pouco petróleo e era dependente do fornecimento da Rússia stalinista, quando os EUA introduziram o embargo. Desenvolveu-se uma economia planificada com elementos de controle dos trabalhadores, o que foi enormemente progressivo. Mas não havia democracia dos trabalhadores, sovietes, eleição de dirigentes, etc. “Quem paga a banda escolhe a música” e foi o stalinismo russo de Khrushchev quem escolheu a música, pondo sua marca sobre o caráter do estado cubano, que embora altamente popular, não era um estado operário democrático como a Rússia no período de 1917 à 1923.

A atual alta do petróleo – com seus preços à 90 dólares o barril, podendo aumentar talvez para cem dólares – deu um fôlego à Venezuela que Castro e Cuba nunca tiveram. Isto permitiu ao regime de Chávez dar consideráveis concessões, especialmente aos pobres, sem ainda acabar fundamentalmente com o poder econômico e político do capitalismo venezuelano. Isto resultou em um processo incompleto e, no momento, um certo impasse na revolução e nas relações sociais.

Romper com o capitalismo para evitar a contra-revolução

Porém, esta posição instável não pode durar indefinidamente. A contra-revolução pode tomar diferentes formas. Por um lado, a América Latina testemunhou um golpe súbito no Chile em 1973, mas depois tivemos a contra-revolução lenta e ‘rastejante’ na Nicarágua. Os sandinistas deram uma pausa – embora tenham alcançado uma etapa mais avançada do que a Venezuela hoje – por causa do conselho, proferido por Fidel Castro, de deter a revolução no meio, o que preparou o caminho para a reação. Se o preço do petróleo colapsar, o que poderia ser o caso numa séria recessão econômica mundial, uma contração no mercado mundial decorreria disso, afetando inclusive a China, o que poderia então cortar sua feroz “fome” de energia. Isto seria agudamente sentido na Venezuela, na economia, entre seu povo e afetaria até mesmo as perspectivas do governo. Mesmo agora, as próprias reservas de petróleo acumuladas pelo governo produzem problemas. Temos a perversa situação derivada dos absurdos do capitalismo de que para muito dinheiro resultam poucos bens, resultando na inflação, que subiu para comprovados 20% ou mais. A criminalidade aumentou; a Venezuela tem mais mortes violentas per capita do que o Brasil. Isto poderia ser agravado por uma recessão econômica. No momento, Chávez goza de um apoio generalizado, de talvez mais de 60%, mas isto pode evaporar, especialmente entre a classe média, se houver uma depressão econômica na Venezuela. Apoiamos todos os passos à frente de Hugo Chávez e seu governo para mudar para melhor a vida dos pobres, da classe trabalhadora e dos camponeses. Mas a única garantia de que isto não irá ser revertido e de que a contra-revolução seja derrotada é tomando a indústria do petróleo – que atualmente é apenas parcialmente controlada pelo governo – e outras, nacionalizar a terra e entregá-la para os lavradores. Acima de tudo, é preciso realizar um programa de democracia dos trabalhadores, onde o poder real esteja nas mãos da classe trabalhadora, dos pobres e de suas organizações independentes.

Um dos problemas da revolução surge da história e das características da classe trabalhadora venezuelana, sua falta de consciência sobre seu próprio poder e ausência de movimentos independentes. Isto levou alguns a buscar por libertadores desde cima. Por causa do vácuo que existia, Chávez e os oficiais do exército ao seu redor, muito corajosamente, interferiram, inicialmente impulsionados pelo sofrimento das massas e pelo beco sem saída do capitalismo, foram mais tarde empurrados para a esquerda e se radicalizaram no processo. Porém, por causa de suas origens – de dentro do exército – eles adotaram uma abordagem ‘de cima para baixo’ em relação à “democracia”. A influência de Cuba também reforçou isto, algo que tem um duplo efeito. Por um lado, há a incrível ajuda em termos de saúde – a população cubana tem uma expectativa média de vida maior do que os EUA e igual à Grã-Bretanha. Isto jogou um importante papel no aumento do apoio ao governo Chávez. Porém, isso seria muito mais efetivo se a Venezuela rompesse completamente com o latifúndio e o capitalismo junto com a Bolívia e estes dois países se juntasse à Cuba em uma federação socialista democrática, com controle e gestão dos trabalhadores. Um estado operário democrático na Venezuela agiria como um farol para Cuba e o resto do continente. É para isto que o CIO está lutando.

Bolívia a bordo

No grau de avanço do movimento de massas, a Bolívia está atrás apenas da Venezuela. A chegada ao poder de Evo Morales e do MAS abriu um cenário tão dramático como na Venezuela. Porém, Morales hesitou ante as demandas do movimento – 60% da população é de povos indígenas – exigindo uma ruptura decisiva com o sistema. A grande maioria dos bolivianos é muito pobre e tem a esperança de que Morales e o MAS introduzam uma mudança decisiva. “Dentro do movimento indígena há raiva com a contínua dominação da chamada elite rica na Bolívia. Temos um presidente, mas não temos o poder. A elite rica continua a nos controlar. Ela nunca aceitará as mudanças que queremos”, diz Silvano Paillo, parlamentar pelo MAS. A contra-revolução na Bolívia se sente muito mais forte nesta etapa do que na Venezuela. Ela tem presença em muitos estados, em alguns até com a maioria, como no estado rico em recursos naturais de Santa Cruz. Ela está armada até os dentes, com a organização de bandos paramilitares reacionários fora do exército. Morales também cometeu o erro fundamental, similar ao de Allende, de prometer não tocar na casta de oficiais, o que é um presente à reação boliviana. No entanto, os trabalhadores e camponeses bolivianos têm uma longa e sangrenta experiência com os militares e é certo que resistirão, como aconteceu no passado, a qualquer tentativa de reação armada para derrubar Morales.

As elevadas tensões sociais e políticas se manifestam até mesmo dentro do Congresso, com choques físicos entre a direita e a esquerda. O Congresso – que estipula que uma maioria de dois terços deve votar por uma mudança constitucional, ou por mudanças socialistas decisivas – foi agora suspenso. Deve avançar agora a palavra de ordem do movimento de massas na Bolívia por uma nova Assembléia constituinte revolucionária a ser convocada através da organização de comitês de massas. Estes devem garantir que a Assembléia realize a total e completa nacionalização das maiores indústrias – especialmente as energéticas – e a introdução de uma economia socialista planificada ligada à Cuba e Venezuela. Sem tal abordagem corajosa, Morales pode se unir à lista de líderes de trabalhadores bolivianos falidos – alguns assassinados – que se recusaram a agarrar as oportunidades para mudar decisivamente a sorte da sociedade e com ela, a maioria do povo boliviano.

Brasil

Por mais importantes que sejam estes eventos, o destino do socialismo a longo prazo no continente será determinado por países cruciais como Brasil, Argentina e Chile, com poderosas classes trabalhadoras, tradições socialistas e revolucionárias e uma história de movimentos independentes. À primeira vista, o Brasil com o governo Lula ao leme parece estar caminhando adiante. O crescimento econômico está acima dos 5% ao ano, mais do que o dobro da média das duas últimas décadas. Mas a realidade para as massas é muito diferente. Sintomática da situação são as bárbaras condições nas favelas, onde a pobreza esmagadora está misturada com desespero, crimes e drogas. Um jornal do Rio recentemente comparou as imagens da carnificina na cidade à violência em Bagdá, concluindo que eram “cenas de uma guerra civil”. O ativista de direitos civis dos EUA, Jesse Jackson, diz corretamente que quando os empregos desaparecem em uma comunidade, chegam as drogas e depois delas as armas. O sentimento de abandono que agita o ódio de classe é aumentado quando os pobres vivem quase ao lado de elegantes blocos residenciais ocupados pelos ricos, cercados por altos muros e cercas eletrificadas.

Apesar do elogiado crescimento da economia brasileira, os empregos estão fugindo para a China e outros países, e indústrias como as têxteis, de calçados e metalúrgicas indo à falência: “Se isto continuar, veremos a desindustrialização do Brasil”, queixa-se um empresário do Rio Grande do Sul (Financial Times). Mesmo o sucesso proclamado por Lula traz problemas. Por exemplo, o real, a moeda brasileira, recentemente vem tendo uma alta, minando assim a capacidade das companhias manufatureiras de competir no mercado mundial. Elas antes exportavam para o Leste da Ásia, mas agora “ao invés disso, estão construindo fábricas lá”. Sem empregos, os habitantes pobres das favelas se voltam para as drogas como uma fonte de renda e um consolo do pesadelo que os cerca. A polícia, ao invés de ser guardiã da “lei e da ordem”, é vista como um instrumento dos opressores e está envolvida até o pescoço no comércio de drogas. Com a indústria privada colapsando – apesar dos louvores à privatização – os trabalhadores competem pelos poucos empregos no setor público numa época em que este está sob crescente ataque. Segundo o Financial Times, “as leis trabalhistas no Brasil continuam altamente restritivas”. Traduzindo isto significa que as lutas passadas da poderosa classe trabalhadora brasileira, que resultaram em ganhos, estão agora sob o martelo da burguesia e do ex-campeão dos metalúrgicos, Lula. Em maio e agosto, os trabalhadores brasileiros fizeram uma mobilização nacional. Em maio, 1,5 milhão saíram às ruas em protestos, greves parciais e bloqueios em cidades como São Paulo.

PSOL

O ataque à previdência pelo governo Lula provocou uma grande oposição e a deserção de significativas camadas dos trabalhadores do setor público e outros para o Partido Socialismo e Liberdade (P-SOL), formado três anos atrás. Isto representa um dos mais importantes e encorajadores processos no continente latino-americano. A seção brasileira do CIO, Socialismo Revolucionário, foi um dos primeiros a prever a necessidade e levantar a demanda por um novo partido de massas dos trabalhadores. Ela esteve entre os pioneiros do P-SOL. Internacionalmente, por causa do completo aburguesamento dos antigos partidos dos trabalhadores – como o PT, a social-democracia na Europa e os ex-partidos comunistas – o processo inevitável de realinhamento e a criação de tais partidos é a marca da atual situação mundial. A criação destes partidos, como a experiência do P-SOL mostrou, é vital para reunir as forças dispersas da classe trabalhadora, imbuí-las com o sentimento de sua própria força e empreender uma luta combinada contra o capitalismo e o imperialismo.

Porém, o CIO nunca viu na criação de partidos de massas uma panacéia ou um fim em si mesmo. Qualquer novo partido de massas hoje representa, do ponto de vista político, uma arena para a clarificação e luta ideológica; para o desenvolvimento de um programa para rearmar a classe trabalhadora para futuras batalhas. Isto foi demonstrado pelo desenvolvimento do P-SOL que, em pouco tempo, cresceu eleitoralmente, com 6% nas eleições presidenciais, mas que também reuniu diferentes tendências políticas, antes separadas umas das outra, dentro da estrutura de um partido de massas. Através dos eventos e de uma discussão conduzida de um modo positivo e amigável, tais partidos podem fornecer com o tempo a base para a elaboração de um programa marxista e revolucionário claro para que a classe trabalhadora tome o poder. A seção brasileira do CIO, através da publicação deste livro, espera ajudar neste processo.

As questões discutidas nas páginas seguintes afetam o movimento dos trabalhadores mundialmente e têm relevância para a situação que se desenvolve no Brasil e na América Latina neste momento. O caminho que está à frente, através de vitórias e algumas vezes de retrocessos, está criando uma nova geração endurecida, tal como os trabalhadores brasileiros foram, pela incapacidade do capitalismo e do imperialismo de mostrar uma saída.

O século XXI será o século do socialismo. Mas o meio para se conquistar este objetivo está na criação hoje de bases para a construção de forças de massas imbuídas com o método, programa e perspectivas do marxismo genuíno. O CIO, que reúne em suas fileiras alguns dos melhores lutadores militantes e marxistas conscientes em 40 países de todos os continentes, não é a última palavra neste processo em desenvolvimento. No entanto, se os leitores examinarem nossas idéias, colocadas neste livro, esperaremos que tenham acordo conosco de que na abordagem do CIO se situa o caminho para a construção de partidos de massa da classe trabalhadora e de uma Internacional de massas que possam realizar o sonho dos pioneiros, uma confederação socialista mundial.

Peter Taaffe

Setembro de 2007

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas

I. No mercado financeiro commodities é o termo usado para produtos em estado bruto ou pequeno grau de industrialização (N. do T).

II. Sub-prime é uma qualificação de um setor específico dos empréstimos que são avaliados como de alto risco (N. do T.).

III. Hedge fund: investimento altamente especulativo com o intuito de diminuir os riscos de outro investimento (N. do T.).

 
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