Seção brasileira do Comitê por uma Internacional dos Trabalhadores

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O PSOL que queremos Imprimir E-mail
André Ferrari, Diretório Nacional do PSOL - 19 de abril de 2011

O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) sai do processo eleitoral de 2010 como a mais importante referência política de oposição de esquerda ao governo Dilma e ao lulismo.

A campanha presidencial de Plínio de Arruda Sampaio jogou um papel importante para resgatar temas centrais de luta dos movimentos sociais e da esquerda socialista. No espaço que o partido conquistou na campanha, Plínio defendeu a reforma agrária, denunciou a dívida pública como verdadeira “bolsa família” dos ricos e defendeu sua suspensão com auditoria, além de levantar uma clara defesa dos serviços públicos de educação e saúde, denunciar as privatizações e mostrar que o lulismo não se diferencia efetivamente do tucanato.

O PSOL também foi o único setor de oposição de esquerda ao governo federal que conseguiu eleger parlamentares em 2010. Foram três deputados federais, quatro deputados estaduais e um senador, pelo menos por enquanto. Se for possível reverter a semi-cassação do mandato de Marinor Brito do Pará pela decisão do STF em legitimar a candidatura do “ficha suja” Jader Barbalho, o PSOL poderá manter dois senadores.

Em algumas regiões, o PSOL foi um fator relevante no cenário político e conseguiu dialogar com amplos setores de massas. O destaque é sem dúvida o Rio de Janeiro. Apesar dos limites do partido e sua direção, algumas das mais importantes demandas dos movimentos populares encontraram em candidaturas do PSOL um canal de expressão. A luta contra a criminalização da pobreza e dos movimentos, a luta pela reforma urbana e pelos direitos sociais mais básicos puderam utilizar o PSOL como ferramenta.

Apesar de um cenário político geral adverso, marcado pelo relativo refluxo nas lutas de massas, ilusões no lulismo, pela falsa polarização entre PT e PSDB assim como a falsa novidade representada por Marina Silva, o PSOL conseguiu estabelecer algumas bases para o avanço da construção de uma oposição de esquerda efetiva no país. Mas, levar adiante essa tarefa no próximo período dependerá das avaliações e deliberações a serem definidas pelo III Congresso do partido no final desse ano.


Investir no fortalecimento das lutas dos trabalhadores

É verdade que o principal fator a definir os rumos do PSOL e da oposição de esquerda está relacionado às perspectivas para as lutas sociais. Sem o crescimento, generalização e unificação das mobilizações de trabalhadores, estudantes, sem-terra e demais setores atingidos pelas políticas neoliberais que o governo Dilma já começa a implementar, a tendência é que o espaço do PSOL fique restrito.

Porém, o partido pode e deve jogar um papel central no estímulo e fortalecimento das lutas sociais. O PSOL não é mero expectador desse processo.

Os mandatos parlamentares têm que estar integralmente a serviço das lutas concretas dos trabalhadores. Os militantes e dirigentes do PSOL devem trabalhar para enraizar o partido nos locais de trabalho, estudo, nos bairros e no campo, com uma perspectiva de organização para a luta. Da mesma forma, o PSOL deve estimular a reorganização do movimento sindical e popular.


A ameaça do eleitoralismo

Infelizmente, porém, o que vemos no interior do partido é o crescimento de uma visão e prática que subestimam as lutas diretas dos trabalhadores e jogam todas as fichas na disputa eleitoral de forma muitas vezes temerária.

Em 2010, essa visão eleitoralista foi derrotada no interior do partido com o fracasso da política de coligação do PSOL com o PV de Marina Silva e também com a derrota de Martiniano Cavalcanti na disputa sobre quem seria o candidato presidencial do partido.

Porém, ainda em 2010 tivemos situações inaceitáveis como, por exemplo, a participação do candidato a senador do PSOL no Amapá na campanha de candidatos da direita (PTB). Da mesma forma, o cálculo eleitoral desesperado levou o PSOL do Rio Grande do Sul a abrir mão de um candidato ao Senado para apoiar Paulo Paim do PT, o mesmo que recentemente, apesar de toda a demagogia, votou a favor do reajuste ridículo do salário-mínimo.

Antes mesmo de 2010, vimos coligações feitas com partidos da base governista ou legendas fisiológicas, como nas eleições de 2008. Em Porto Alegre, o PSOL coligou-se com o PV e ainda por cima aceitou receber recursos da Gerdau para a campanha eleitoral.

Internamente ao partido, a ânsia eleitoralista pode ser extremamente danosa à democracia interna. Mandatos parlamentares transformam-se em verdadeiros Olimpos de onde uma elite define políticas sem qualquer consulta ou debate nas bases.

O eleitoralismo também deforma e desconfigura a base militante do partido. Se o eleitoralismo prevalece, vale a filiação em massa, despolitizada e descomprometida com a construção partidária e as lutas dos trabalhadores. Essa base deformada acaba por resumir-se, no máximo, a um amontoado de cabos eleitorais e não um coletivo militante consciente e crítico, capaz de atuar e pensar por conta própria.

O crescimento orgânico do PSOL tem que se dar principalmente com base no recrutamento ao partido dos melhores ativistas dos movimentos e lutas sociais. Essa base orgânica sólida é que permitirá ao partido influenciar politicamente setores muito mais amplos do povo. A ausência de um partido de militantes ativos e organizados, faz do PSOL refém dos interesses eleitorais.


Crise do PSOL em São Paulo

A crise que estamos observando no PSOL de São Paulo reflete a hegemonia eleitoralista no partido de conjunto. A tentativa de um setor ligado ao deputado estadual Carlos Giannazi, em ação coordenada com a corrente MES, de filiar mais de 700 pessoas ao partido sem nenhum critério de militância ou qualquer base política mais sólida, representa um passo qualitativo para trás.

O problema é que alguns dos setores que hoje questionam essa prática, no caso a corrente majoritária em São Paulo (APS), ajudaram a diluir o caráter militante do partido nos últimos anos. A praticamente total ausência de critérios para a participação de filiados na eleição de delegados aos Congressos não foi uma política exclusiva de Giannazi e do MES.

A descaracterização progressiva do PSOL como partido de lutadores da classe trabalhadora e de militantes socialistas é resultado da política dos setores majoritários. A única forma de cortar pela raiz práticas como a que se tenta implementar em São Paulo é revertendo radicalmente a política majoritária.


Rupturas com o partido

Recentemente setores organizados romperam com o partido em estados como Maranhão e Rio Grande do Sul, além de muitos outros ativistas independentes que seguiram o mesmo rumo.

Essas defecções são resultado da política adotada pela direção no último período. A seguir o curso atual, o partido vai perder uma base importante de seu quadro militante ativo. Esse processo só vai fortalecer a base despolitizada e oportunista no PSOL e coloca em sério risco o seu futuro.

O PSOL é um elemento progressivo na realidade da luta de classes no país. Vimos isso com a campanha de Plínio em 2010 e o papel que joga, por exemplo, no Rio de Janeiro. O partido ainda é a principal referência de oposição de esquerda no país. O grau de fragmentação e dispersão da esquerda independente do governo seria ainda maior se o PSOL não existisse. Esses fatores justificam a política de atuar no PSOL e buscar construí-lo com uma política consequente.

Porém, nesse momento, atuar no PSOL só se justifica se travarmos uma firme luta política pelo resgate de seu projeto original de um partido classista, democrático e socialista. Para isso, é preciso construir uma ala esquerda unificada e consequente no PSOL capaz de aglutinar todos os que queiram resistir ao curso eleitoralista.

Chamamos a todos os militantes consequentes do PSOL a defender de forma clara e franca o retorno do partido ao seu projeto original:

  • Por um PSOL que seja oposição consequente, classista e socialista ao governo Dilma, ao lulismo e à direita tradicional.
  • Enraizar o partido nas lutas dos trabalhadores e da juventude como prioridade.
  • Intervir no processo eleitoral com uma política classista e socialista e candidaturas a serviço das lutas dos trabalhadores.
  • Organizar o partido pela base, com núcleos ativos nos bairros, locais de trabalho e estudo, categorias e movimentos sociais.
  • Construir o PSOL com os lutadores da nossa classe e não um partido de cabos eleitorais.
  • Não às coligações com partidos burgueses e governistas em 2012. Não às contribuições financeiras de empresas ao partido. Não à filiação industrial, sem critérios.
  • Por um PSOL democrático e militante, classista e socialista. Pela unidade de uma Frente de Esquerda com PSTU, PCB e demais organizações e movimentos de luta da classe trabalhadora.
 
  
Comentários
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Fernando Batista Berni  - Frente de Esquerda   |21-04-2011 03:42:04
Aproveitando a nossa própria experiencia com o Bloco de Esquerda devemos continuar a defender a
Frente de Esquerda como PSOL ., PSTU e PCB por exemplo.,como em 2006 e formar um "bloco" ou
uma Frente de Esquerda "dentro" do PSOL. Falo isso como ex-Militante da AS que fiquei no
PSOL pra continuar dando está batalha por um P-SOL Democrátic., Classista e de Lutas!
André Ferrari  - Frente de Esquerda   |27-04-2011 12:41:39
Total acordo Fernando. Nosso propósito é manter a política de construção de um Bloco político
de esquerda classista,democrática e socialista no PSOL.
José Damião de Lima Trindade  - De inteiro acordo, Camarada!   |27-04-2011 21:35:36
Camarada André
Você, provavelmente, não se recordará de mim.
Sou o Damião, de São Paulo -
eu fiz parte dos 101 fundadores originais do PSOL.
Eu nunca fui, nem sou, organizado em qualquer
corrente interna do PSOL, embora minha trajetória política venha sendo de concordância política
com os Camaradas do CSOL, a corrente da valorosa Camarada Júnia, uma Camarada que espelha toda a
Corrente que ela lidera.
Quero expressar a você que eu concordo completamente com esse seu
posicionamento em favor da unidade plural e democrática da esquerda revolucionária, contra o
eleitoralismo e o oportunismo degeneradores, e por uma política de organização pela base e
militante em direção ao socialismo.
Posicionamentos como esse seu, assim lúcidos, inteligentes e
politicamente radicais - mas emocionalmente sem desequilíbrios e sem doutrinarismos excludentes -
contribuem para preservarmos a perspectiva da superação da nossa própria fragmentação e da
superação histórica do domínio do capital.
Parabéns, Camarada!
- Damião
André Ferrari  - Unidade da esquerda no PSOL   |28-04-2011 07:51:01
Camarada Damião,
Não lembrar de você? Só pode ser brincadeira... você foi e continua sendo
referência política (e teórica) para todos nós que batalhamos juntos pela construção de uma
alternativa de esquerda diante da falência do PT e os limites de outras experiências.
Nossa
posição continua sendo a mesma que adotamos no I e II Congressos do PSOL. Somos pela unidade da
esquerda do partido, acumulando forças para resgatar seu projeto original, um projeto em grande
parte construído por camaradas como você.
Queremos o PSOL da independência de classe, da
organização pela base, da militância consciente, da democracia interna e do enraizamento nas
lutas de massas. O PSOL anti-capitalista e socialista não apenas no papel, mas na construção
cotidiana de sua intervenção na luta de classes.
Tenho certeza que estamos juntos nessa batalha.
Trabalhamos também para o avanço nas relações com o CSOL, CST e outros setores do partido para
uma intervenção coordenada no Congresso, respeitando-se as diferenças.
Um PSOL que avance na
superação do PT, política, programática e organizativamente, é uma necessidade da classe
trabalhadora brasileira.
Forte abraço, camarada Damião.
André
Fernando Batista Berni  - Unidade da Esquerda do P-SOL   |14-05-2011 14:15:03
Camaradas Bolches Damião e André acho que encontramos o ponto certo. Construir um Frente de
Esquerda., quiçá., junto a CST e ao C-SOL e outros grupos que podemos compor pela defesa de um
P-SOL Democrático., Classista e de Lutas!
William  - Presente!   |18-05-2011 07:11:45
Camarada,

texto lúcido e que traz uma clareza e a necessidade de se construir um partido da classe
trabalhadora e anti-capitalista.

Abraços, André.

William de Fortaleza/Ce.
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