Seção brasileira do Comitê por uma Internacional dos Trabalhadores

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Quem vai pagar pela crise? Imprimir E-mail
Marcus Kollbrunner - 16 de dezembro de 2015

A economia brasileira continua afundando e ainda não chegou ao fundo do poço. O próprio governo federal estima agora que o PIB (soma de tudo que é produzido no país) cairá 3,62% esse ano e mais 2,67% o ano que vem, nesta que é a crise mais longa desde os anos 1930.

São vários os tristes recordes que estão sendo batidos. Esse ano deve ter a maior perda de empregos formais da história. Nos últimos 12 meses, sumiram 1,2 milhões de empregos com carteira assinada. Com a queda da renda dos trabalhadores e com a inflação acima de 10%, há mais procura por emprego para garantir o sustento das famílias. Por isso o desemprego aumenta ainda mais rápido. 8,8 milhões (8,7%) estavam desempregados durante junho-agosto, segundo o IBGE. Isso é 2 milhões a mais do que o mesmo período no ano passado.

Esgotamento do modelo lulista

Essa crise reflete o esgotamento o modelo lulista de crescimento, baseado no cenário mundial favorável às exportações de commodities e um crescimento do consumo doméstico baseado em uma política limitada de distribuição de renda, que não ameaçava os lucros das grandes empresas.

A indústria tem sido afetada duramente pela crise. A produção industrial em setembro estava 10,9% abaixo a de setembro de 2014. No setor automobilístico a queda é ainda maior. A produção recuou 24,3% nos 10 primeiros meses esse ano, comparado com o ano passado. Hoje há 45 mil trabalhadores do setor, 34% que estão afastados da produção, seja pelo Programa de Proteção ao Emprego, férias coletivas ou lay-off. No total, a indústria responde por 40% dos postos de trabalho formais que foram eliminados esse ano até setembro e cortou 515 mil empregos nos últimos 12 meses. A construção civil também é duramente afetada e está demitindo centenas de milhares. A Operação Lava Jato, crise da Petrobras e cortes no PAC contribuiu para diminuir investimentos em infraestrutura.

Porém, ainda não vimos uma crise financeira mais grave, com fuga de capital, escasseamento do crédito e disparada dos juros. Esse cenário não está descartado (por exemplo se o país perder o grau de investimento de mais uma das três grandes agências de avaliação de risco) e pode agravar ainda mais a crise, apesar das grandes reservas internacionais de 370 bilhões de dólares. Uma fuga de capital pode elevar mais ainda a cotação do dólar, que atingiu o nível mais alto da história do real, 4,145, no dia 23 de setembro. Mas mesmo sem esse cenário mais catastrófico, a crise vai ser de longa duração. A previsão do governo é que o PIB cresça somente 1,1% em 2017.

“Ajuste” contra os trabalhadores

O centro da política do governo é de implementar um “ajuste fiscal”, que recai principalmente sobre os trabalhadores, com cortes nos programas sociais, aumento de impostos e retirada de direitos.

A pesar do ministro Levy se vangloriar que o governo fez o “maior contingenciamento da história, de R$ 80 bilhões”, que já teve um impacto grande na saúde, educação, moradias, etc. – o ajuste fiscal mal começou. Pelo contrário, vimos como a previsão para esse ano do governo novamente foi de um superávit para um déficit primário (sem levar em consideração os gastos com os juros da dívida pública), como no ano passado. No começo do ano a meta era de um superávit de 1,2%. Em julho a meta foi reduzida para 0,15%. Depois de várias revisões a meta no início de novembro era de um déficit primário de entre 0,9% a 2% do PIB! O pior cenário, de um déficit de R$ 120 bilhões, inclui o pagamento integral de todos os empréstimos informais das “pedaladas fiscais”.

Lucros dos bancos continuam a crescer

Se acrescentamos os juros da dívida pública, o “déficit nominal” chega perto de 10% do PIB, o que levará a um rápido aumento da dívida pública. Quem sai feliz desse velório são os bancos, que em plena crise econômica estão aumentando seus lucros. Segundo o levantamento do DIEESE – Rede Bancários, o lucro dos cinco maiores bancos do Brasil cresceram 17,9% no primeiro semestre, para 33,6 bilhões!

O governo já está dando o ano de 2015 como perdido e espera conseguir um superávit primário de 0,7% no ano que vem. Mas o pacote de 26 bilhões de cortes e 40,2 bilhões de aumento de impostos para garantir a meta do ano que vem está longe de ser garantido. Praticamente nada foi votado. A principal medida, a reintrodução do CPMF, dificilmente passará no congresso. Mesmo se passar, a previsão é que só entrará em vigou no final do ano que vem. Por isso o governo deve apresentar outras medidas, incluindo impostos que podem ser elevados por decreto, como a CIDE (sobre combustível), IOF e IPI, que devem reduzir ainda mais o consumo e elevar a inflação.

Muitos mais ataques virão, se não conseguimos reverter a lógica de que é a classe trabalhadora e a população pobre que tem que pagar pela crise, e não a elite rica que se enriquece quando a economia cresce, e faz tudo para retirar nossos direitos e reduzir nossos salários, quando a crise chega.

Romper com a lógica do sistema

O PT está indo pra história como mais um partido oriundo da classe trabalhadora que abandonou qualquer pretensão de fazer uma mudança mais radical na sociedade e tentou vender a ilusão de que é possível dar uma face humana ao capitalismo. O resultado disso foi a transformação, não da sociedade, mas do próprio partido, em mais uma máquina de poder, afundado até o pescoço na lama da corrupção e alianças com o que tem de pior na política brasileira. Precisamos construir uma alternativa de esquerda que consiga derrotar o sistema capitalista, uma alternativa socialista.

 
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