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Descriminalização do aborto em caso de anencefalia – a luta pela legalização integral do aborto continua! Imprimir E-mail
Flávia Ribeiro, psicóloga e militante do Movimento Mulheres em Luta - 22 de maio de 2012

Esse ano a luta das mulheres teve uma vitória no dia 12 de abril! Mas essa é apenas uma vitória parcial. Depois de dois dias de discussão o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou por 8 votos a 2 a descriminalização do aborto em caso de anencefalia.

No Brasil, a descriminalização do aborto em dois casos específicos esta prevista na Constituição Federal: estupro ou risco de morte da mãe. No entanto, mesmo nestes casos, não há garantia de acesso a uma interrupção, mesmo a mulher comprovando o seu estado de desgraça ou morte eminente. Nos casos de anencefalia, muitos profissionais se recusavam a realizar o procedimento, mesmo com a autorização judicial, a anencefalia era analisada caso a caso com ações demoradas na justiça, resultando várias vezes numa gestação completa onde a decisão favorável para a interrupção terapêutica era julgada após o nascimento do feto, onde ai literalmente falando, “Inês já é morta”.


Processo durou 8 anos

Vale lembrar que a Confederação Nacional de Trabalhadores da Saúde ingressou com uma ADPF 54 – Ação de Descumprimento de Direito Fundamental – em 2004 e só agora, passados 8 anos que o Supremo debruçou-se sobre o tema, depois de dois dias de intensos debates. É interessante observar que os votos contrários afrontam diretamente os preceitos fundamentais da Constituição Federal que garantem a não interferência da religião no Estado, que garantem o direito a vida e a dignidade da pessoa humana, da saúde, da privacidade da mulher. Esta afronta reflete uma posição conservadora que se iniciou na campanha de Dilma, onde a bandeira pela legalização e descriminalização do aborto foi usada como moeda de troca para garantir sua eleição e uma falsa governabilidade.

Tais fatos nos colocam de volta ao tema da discussão onde fazemos várias perguntas, afinal, acreditamos que a mulher que queira ter filhos tem TODO esse direito e o Estado deve garantir-lhe condições para tê-lo, com um acompanhamento no serviço público de saúde e na assistência social! Mas fica a pergunta: e a que não quer!? E a vida dessa mulher? Ela não pode ter nenhuma relação sexual? E se tem, não pode decidir pelo seu corpo? E a que engravida e descobre que terá um filho anencéfalo? Tudo bem ela ter uma gravidez de risco e poder morrer junto com seu filho? Tudo bem ela gestar 9 meses um filho que não vai viver mais de uma hora por malformação, tendo praticamente uma “gravidez funeral”? E a vida dessa mulher!? E a saúde dessa mulher!? Saúde física e mental... na verdade DESSAS mulheres, pois milhares de mulheres morrem em consequência de abortos clandestinos e complicações do parto todos os anos, para além dos casos de anencefalia! Por isso somos a favor da legalização do aborto!


Por quem lutamos

Lutamos hoje pelo direito das mulheres, que estão inseridas numa cultura que valoriza amplamente o processo de gestação em suas vidas, como se elas nascessem apenas pra isso, como se a gravidez fosse uma missão, um dever.

Lutamos pelas mulheres que não querem ter mais filhos, devendo se submeter a uma moral que não permite que elas digam não a seus parceiros na hora do sexo, e ao mesmo tempo lhes proíbem o uso do mais básico dos contraceptivos que é a camisinha. Lutamos pelas mulheres que enfrentam um Estado muitas vezes omisso e até mesmo opressor, que vira as costas para seus direitos de uma saúde plena para submeter-se à valores religiosos. Lutamos pelo direito das mulheres pelos seus corpos e pelo direito à decisão sobre se querem ou não continuar com uma gestação, sendo ela de risco ou não.

Lutamos também, pela saúde das mulheres que querem ter seus filhos, mas, infelizmente, o feto é anencéfalo. Lutamos pela preservação da saúde mental e física dessas mulheres. Quando dizemos saúde física, nos referimos ao fato dessa gravidez trazer sérios malefícios à mulher, como por exemplo, hipertensão arterial, excesso de líquido amniótico com consequente hiperdistenção do útero, o que pode levar a grandes hemorragias. Quanto à saúde mental, nos referimos à tortura que é pra uma mulher não poder cuidar do seu filho quando ele nascer, não poder acariciá-lo, dar banho, amamentar, vê-lo correr, brincar e amá-lo como deseja. Pois, nada deve ser tão deprimente e mortífero pra uma mulher que quer ser mãe, sentir seu filho crescendo dentro dela e não poder segurá-lo no colo, vê-lo viver, por conta desta malformação.

Vale salientar que a decisão do STF não obriga nenhuma mulher a interrupção terapêutica, sendo esta uma gravidez anencefálica. Ela apenas assegura que, pelo menos, nos casos permitidos por lei, de estupro, risco de morte pra mãe e agora anencefalia, haja o DIREITO DE ESCOLHA!


A vitória é ainda parcial

Apoiamos a decisão majoritária do STF neste caso, mas não podemos deixar de analisar que é uma vitoria parcial, pois a mesma justiça burguesa que votou favorável a anencefalia, também absolveu recentemente um pedófilo com o argumento de que as três meninas de 12 anos já eram prostitutas na ocasião dos fatos. Como se com prostitutas pode-se fazer o que quiser independente da idade. Caso estas meninas engravidassem, lhes seria negado o direito ao aborto, já que não se caracterizou um estupro.

Ainda há muito que lutar e conquistar para que tenhamos uma sociedade igualitária e as mulheres realmente consigam ter mais direitos que um feto. Mas o fundamental para todas estas lutas é lhe garantir o direito a vida com dignidade, como afirma o lema da campanha nacional das mulheres do PSOL: não há vida digna para as mulheres com violência e sem direitos.

A anencefalia é uma malformação fetal grave que resulta na ausência total do cérebro, calota craniana e couro cabeludo impossibilitando que o feto sobreviva depois de nascer. A anencefalia, ou a tal malformação, pode ser descoberta já nos primeiros três meses de gestação, sendo esse um diagnóstico extremamente preciso através de exames simples como o ultrassom. A maioria desses fetos acaba morrendo dentro do útero em poucos meses de gestação. 

Comentários
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MARIZETE S W HEBERLE  - decisão   |22-08-2012 19:35:15
acabei de ler e concordar muito em tudo, a mulher tem o direito de decidir, se quer ou nao
interromper a gravides.Os danos emocionais por sao por toda a vida desta mulher quando ela ja
sabendo que seu filho nao vai sobreviver mas nao tem o respaldo da lei, onde ela possa interromper
esta gravides.Na minha opiniao a mulher decide se sim se nao, por que na maioria dos casos de
pessoas violentas se realizarmos uma pesquisa as maes nao desejavam de verdade estes filhos, ai
colocam no mundo assim mesmo né, por que aborto não pode, crescem sem amor sem carinho sem saber o
que é amar e respeitar os outros,longe de mim dizer que acabam virando assassinos por que na
verdade são vitimas de uma sociedade mal estruturada e leis mal formuladas, e quem paga? eu , voce,
nossos filhos que colocamos no mundo desejamos isso , e muitas vezes vem alguem e tira a vida deles,
alguem que nao era desejado nao teve amor algum e acaba com a vida de muitas páis que sonharam ,
desejaram fizeram planos e agora choram ao lado de um caixão e de outro lado mais um gasto para o
sistema penitenciário.
Tudo que acontece é uma piramide quem sabe verificando melhor acabam
percebendo que tudo começa ai no ABORTO e a verificaçao do que realmente é crime com quem ou
contra quem.
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