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“Os moradores das favelas não são considerados cidadãos” Imprimir E-mail
Luciano Barbosa - 06 de julho de 2009

Durante o mês de junho os moradores do conjunto da Favela da Maré (RJ) passaram por mais uma situação de fogo cruzado. O conflito entre facções rivais divide a favela colocando em risco a vida de trabalhadores e trabalhadoras. O governo Sergio Cabral deixa clara sua política de segurança, enviando caveirões, reprimindo trabalhadores e matando inocentes. Esta é a dura realidade de mais de 60% de trabalhadores e trabalhadoras cariocas moradores das favelas. Entrevistamos ALEXANDRE DIAS, professor de História do Pré-Vestibular Popular na Maré, mestrando em Etnomusicologia na UFRJ e militante do PSOL, sobre as tarefas colocadas para a esquerda socialista...

LB: Nos últimos anos vem crescendo o número de pessoas assassinadas por operações da polícia na Maré. Como você analisa o processo em curso de criminalização dos pobres?

 AD: Nas últimas semanas no conjunto de Favelas da Maré morreram entre 10 e 15 pessoas sendo que dessas pelo menos 6 comprovadamente não tinham envolvimento com tráfico de drogas, as outras foram consideradas suspeitas. Entre as duas últimas vítimas, havia uma criança de 8 anos que saiu para comprar pão de manhã e foi executada pela polícia no portão de casa. A segunda, de 16 anos, estava vindo da escola e indo para o trabalho quando também foi executada pela polícia. Em função desses assassinatos ocorreram duas grandes passeatas que fecharam a Avenida Brasil [via de acesso ao Rio de Janeiro].

Os moradores das favelas não são considerados cidadãos pela polícia, e sim cúmplices de atividades criminosas, por isso a policia reprime esses moradores de forma tão violenta. Existe hoje um verdadeiro apartheid no Rio.

 LB: A política de segurança dos governos estadual de Sergio Cabral e municipal de Eduardo Paes têm se concretizado nos chamados “choques de ordem” e segregação espacial através da construção de um muro que separaria as favelas do “asfalto”. Como você avalia esse processo?

AD: Para esses governos a política de segurança é uma política de guerra e as mortes são um preço a se pagar, um mal menor. No entanto, essas mortes têm valores e pesos diferentes dependendo do local da cidade. O Secretário de Segurança do Estado disse que trocar tiros com traficantes na Zona Sul (Copacabana) é uma coisa e no subúrbio é outra, já que na Zona Sul as vítimas inocentes teriam mais valor que as da periferia.

A prefeitura afirma que a construção de muros seria para preservar as áreas verdes da cidade impedindo o crescimento das favelas. No entanto, estudos recentes comprovam que a especulação imobiliária e o crescimento da ocupação das áreas verdes do Rio de Janeiro têm se dado através de condomínios de luxo e que em algumas favelas o número de moradias tem até diminuído em função do medo da violência. Na verdade o muro é um complemento do apartheid social.

LB: Estamos às vésperas do II congresso do PSOL. Qual deveria ser e como tem sido a intervenção do PSOL nos conflitos referentes à luta contra a violência urbana?

AD: Comparado a qualquer outro partido de esquerda no Rio de Janeiro, o PSOL deu um salto qualitativo numa relação mais próxima com as demandas e reivindicações das populações favelizadas. Fora de uma linha clientelista ou assistencialista. Isso tem acontecido muito mais por iniciativa do deputado estadual Marcelo Freixo, que tem nos direitos humanos um eixo fundamental de seu mandato – por isso se aproxima das pautas das comunidades favelizadas – do que como uma preocupação do partido como um todo.

LB: E como você vê o fato de Marcelo Freixo estar ameaçado de morte pelas milícias?

AD: As milícias são infinitamente mais perigosas que o tráfico de drogas, por fazerem parte do braço armado do estado burguês e dominarem áreas onde antes nem ao menos havia tráfico de drogas. As populações locais são reféns de sujeitos que deveriam protegê-las e estes sujeitos recebem seus salários através do Estado, porém cumprem um papel mafioso de enriquecimento, extorquindo a população. Nesse sentido acho a atitude do deputado muito corajosa e espero que inspire outros militantes e parlamentares do PSOL a tomarem atitudes semelhantes principalmente relacionadas à luta concreta dos moradores das favelas e periferias do RJ.

LB: Você associa a luta dos movimentos sociais da Maré à perspectiva de luta de classes?

AD: A luta dos moradores das favelas está dentro de um contexto de luta de classes. Embora não dentro do contexto teórico clássico da formulação desta expressão, essas pessoas estão incluídas no capitalismo de forma perversa e não têm muita perspectiva de entrada no mercado de trabalho formal. No Rio de Janeiro a luta pelo socialismo está atrelada a luta pelos direitos humanos, porque a barbárie é tão grande que nós devemos lutar primeiro pela nossa sobrevivência. A principal bandeira é separar a luta dos moradores por direitos sociais e políticos, do discurso de conivência com o trafico feito pelos meios de comunicação e pelo Estado, pois isso atrapalha as mobilizações. 

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