Seção brasileira do Comitê por uma Internacional dos Trabalhadores

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10° Congresso Mundial do CIT 2010: “Oriente Médio” Imprimir E-mail
Congresso do CIT, documento N°03 - 12 de janeiro de 2011

Esse é o terceiro de seis documentos votados no 10° Congresso Mundial do CIT, realizado nos dias 2-9 de dezembro na Bélgica. 

1. A crise do capitalismo e o papel deslavado do imperialismo manifestam-se graficamente no Oriente Médio. A região é assolada pela ocupação militar imperialista, a opressão nacional dos palestinos, curdos e outros, regimes ditatoriais, corrupção endêmica, divisões sectárias, religiosas, nacionais e étnicas, pobreza em massa e desemprego, e crise econômica e condições de vida pioradas. 

Na base da continuação do capitalismo e do imperialismo, novas guerras e conflitos estão destinados a continuar afligindo a região. Um referendo no Sudão, em janeiro, em relação à ruptura do sul, em sua maioria negro africano, cristão e animista, do norte árabe e muçulmano, ameaça levar a um novo conflito sangrento (2,5 milhões morreram na última guerra civil do país).

2. Contudo, a resistência de massas ao autoritarismo e à deterioração das condições de vida também tem um caráter cada vez mais pronunciado no Oriente Médio, como visto de forma mais espetacular no movimento de oposição de massas em 2009 no Irã. Mais significativo do ponto de vista do CIT, o período recente também testemunhou aumento das lutas e esforços dos trabalhadores para construir organizações de classe independentes no Egito, Turquia, Líbano, Argélia e outros lugares. No Egito, o movimento dos trabalhadores fortaleceu suas forças nos últimos quarto anos sob condições de lei marcial e opressão. Na Turquia, 250 mil pessoas tomaram as ruas no 1º de Maio de 2010 na Praça Taksim em Istambul – a primeira vez em 33 anos – após a heroica luta dos trabalhadores da Tekel. Esses acontecimentos são indicativos das futuras lutas de massa dos trabalhadores em toda a região, que colocarão a construção de um forte e independente movimento dos trabalhadores e a formulação de uma alternativa socialista e de classe ao atual sistema.


Economia

3. A continuada crise econômica terá um efeito devastador nas condições de vida de milhões de pessoas no Oriente Médio. Mesmo antes da crise, cerca de 23% da população da região vivia com menos de US$2 por dia e seis milhões de pessoas com ou menos de US$1 por dia. Embora as ramificações da crise financeira mundial sobre os principais bancos da região sejam profundos, a abordagem mais “conservadora” das instituições financeiras da região durante os anos do boom fez com que ela não fosse tão duramente afetada como no Ocidente, pelo menos nas primeiras fases da atual crise econômica. As 18 economias que constituem o Oriente Médio e Norte da África (MENA, em inglês) se saíram melhor que os EUA, que viram sua produção cair 2,4% em 2009, e comparados com a Europa, que se contraiu 4,1% no último ano. Contudo, o desempenho econômico variou muito entre os países produtores de petróleo do Oriente Médio e os não produtores.

4. Alguns países “pobres de recursos” viram um recente crescimento. Atrás apenas do Qatar no Oriente Médio em termos de crescimento econômico, o PIB do Líbano melhorou 9% em 2008 e 2009 e se prevê que o país cresça 8% em 2010. Mas esses dados são enganosos. O Líbano está lutando para erradicar uma montanha de dívidas que chega a 148% do Produto Interno Bruto (PIB), a terceira maior dívida pública do mundo. Os economistas também alertam sobre um possível colapso da bolha do setor imobiliário.

5. A queda nos preços do petróleo, de US$145 o barril em julho de 2008 para menos de US$40 o barril no começo de 2009 causou uma desaceleração nas economias dos seis países produtores de petróleo da região, conhecidos como o Conselho de Cooperação do Golfo (GCC). O PIB total combinado dos países do GCC (Bahrein, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos), que inclui vários dos principais produtores mundiais de petróleo, caiu espantosos 80% de 2008 a 2009. Os países do GCC foram forçados a aumentar o gasto estatal para administrar os déficits orçamentários.

6. Embora espera-se que os países do GCC cresçam em 2010 devido ao aumento dos preços do petróleo, esse não é um quadro uniforme e o crescimento geral é minado por vários fatores. Prevê-se que os Emirados Árabes Unidos fiquem atrás de seus vizinhos do Golfo por causa da economia estagnante de Dubai, após o espetacular colapso de seu boom imobiliário. A continuidade da “aversão a riscos” do setor bancário e a cautela entre os consumidores está ameaçando a recuperação econômica dos GCC.

7. A severa crise econômica de 2000/2002 em países como Israel e Turquia antecipou a atual crise econômica global e levou a uma abordagem mais cautelosa para com a desregulamentação dos setores financeiro e bancário nesses países. Os efeitos da crise econômica mundial desde 2007 foram, até aqui, relativamente limitados no Oriente Médio (embora para a massa do povo não tenha havido melhorias em suas condições de vida). Os pacotes de estímulo nos principais países capitalistas teve um efeito na região. A “recuperação” ajudou os países exportadores de petróleo e algumas outras economias regionais. Israel, em particular, é ajudada por suas ligações com os EUA e a União Europeia (UE). Mas a economia da região, como um todo, continua anêmica e muito vulnerável à crise global. Um “duplo mergulho” da economia mundial ou magro crescimento, guerras cambiais e crescente protecionismo se provarão todos desastrosos para as economias do Oriente Médio. A Arábia Saudita já se uniu a outros países na imposição de novas medidas protecionistas.


Desemprego em massa

8. A crise econômica realça as contradições da superdependência nas reservas de hidrocarbonetos no Oriente Médio. Muitas das economias da região se baseiam quase que exclusivamente no petróleo e falharam em diversificar e aumentar os padrões de vida. O alto desemprego resultante é um traço constante em toda a região, e uma bomba relógio social em andamento. Mais de 30% da população de 350 milhões da região tem 15-29 anos e o desemprego entre essa faixa etária está em torno de 28%. O Oriente Médio tem os mais altos índices de desemprego entre jovens do mundo e dois terços da população tem menos de 24. O Banco Mundial prevê que 100 milhões de empregos precisarão ser criados na região nos próximos 20 anos apenas para acomodar aqueles que tentam entrar no mercado de trabalho pela primeira vez.

9. O desemprego em massa tem alimentado o descontentamento em massa e tensões sectárias por toda a região. Nos países do Golfo, em particular, os xiitas são uma minoria há muito discriminada nos países de maioria sunita. A isso se soma as preocupações das elites dirigentes com a ascensão da influência xiita no Iraque, o Irã se tornando a potência regional dominante e a relativa força do Hizbollah xiita no Líbano. Jogando a carta do “dividir e governar”, as autoridades do Kuwait, Arábia Saudita e Bahrein, nos meses recentes, manteve uma linha dura com suas populações xiitas, que estão exigindo mais direitos.


Iraque

10. A divisão sectária também encontra expressão no fracasso que se arrasta por meses em formar um novo governo no Iraque após as eleições de março de 2010. Depois de 30 anos de ditadura, guerra, sanções, invasão e ocupação imperialista, e insurgência e guerra civil sectária (com os EUA apoiando a maioria xiita), o Iraque hoje alcançou uma “forma horrenda de estabilidade”, com níveis persistentemente altos de violência e um “Estado disfuncional” altamente corrupto. A “situação de segurança” continua terrível, com baixas civis mais altas no Iraque do que no Afeganistão. Esse ano viu um novo desdobramento da violência, com mais de 700 pessoas, a maioria pessoal da segurança, mortas em assassinatos seletivos. Beco sem saída na cúpula, continuação da ocupação imperialista e condições de vida atrozes estão abastecendo a raiva das massas, a oposição violenta e o sectarismo. Bagdá está cortada por 1,5 mil postos de controle, assim como por ruas bloqueadas por quilômetros de muros de concreto. Explosões sectárias retornaram, com punhados de cristãos e xiitas de Bagdá massacrados nas primeiras semanas de novembro de 2010. Desde a invasão americana, a população cristã caiu de mais de 1 milhão para 500 mil e agora é provável um novo êxodo dessa minoria. Não surpreende que poucos dos 2 milhões de refugiados iraquianos na Jordânia e Síria estejam preparados a arriscar a vida voltando para casa. Outros 1,5 milhão, que fugiram de suas casas durante os pogroms sectários de 2006/2007, são “pessoas internamente deslocadas”, muitas das quais são forçadas a viver em campos miseráveis (e neles agora se adiciona um crescente número de refugiados econômicos, incluindo pequenos agricultores empobrecidos).

11. O Iraque é descrito como se parecendo “cada vez mais como o Líbano”, onde cada comunidade étnica ou sectária luta por uma fatia de poder e recursos. As reservas inexploradas de petróleo do país estão entre as maiores do mundo e calcula-se que suas exportações podem quadruplicar na próxima década. O dinheiro do petróleo chega a US$60 bilhões anuais para a máquina estatal gastar em sua maioria em salários das forças de segurança e da burocracia civil. Os líderes sunitas, xiitas e curdos querem uma parte do dinheiro do petróleo e dos escassos empregos. O “centro sunita” do Iraque teme um “renascimento xiita” – cerca de 40% do petróleo do país está em torno da cidade xiita de Basra no sul.

12. O Irã está tentando intermediar um acordo (que também envolve a Síria e o Hizbollah do Líbano) entre Nouri al-Maliki do Iraque, que quer um segundo mandato de primeiro ministro, e o líder xiita Moqtada al Sadr. Os EUA, até agora, falharam em apresentar um governo alternativo. Um funcionário ocidental anônimo declarou que um segundo governo Maliki nos termos do Irã seria “nada menos do que uma derrota estratégica” para o imperialismo estadunidense, após uma guerra de sete anos que custou mais de US$600 bilhões, mais de 4.425 soldados dos EUA mortos e mais de 30 mil feridos. Não há nem mesmo uma tentativa das forças ocupantes de manter dados documentados precisos dos civis mortos como resultado direto do conflito. Estimativas variam entre 100 mil a 600 mil. Quaisquer que sejam os dados precisos, eles ainda significam uma carnificina em massa de iraquianos inocentes.

13. Apesar da “retirada” por Obama das tropas do Iraque, os EUA manterão pelo menos 40 mil soldados, construindo um anel de bases militares e armando pesadamente o Estado iraquiano. Mas abastecer o exército iraquiano numa situação de divisões nacionais, regionais e sectárias está prenhe de perigos. Um conselheiro militar estadunidense, David Kilcullen, alertou no ano passado que o Iraque estava testemunhando as “condições clássicas para um golpe militar”. Como já esboçado pelo CIT, um resultado da invasão e ocupação é a possível criação de vários ditadores ao estilo de Saddam.


Equilíbrio regional de forças

14. A invasão liderada pelos EUA do Iraque acumulou tensões no Oriente Médio e enfraqueceu a posição dos regimes mais pró-EUA. Isso foi reforçado pela raiva popular com os ataques militares de Israel contra o Líbano em 2006 e Gaza em 2009, o assalto de comandos israelenses a um navio de ajuda humanitária a Gaza em 2010, e a continuação da opressão dos palestinos. As elites governantes dos regimes pró-Ocidente, como Jordânia, Egito e Arábia Saudita, que são vistas pelas massas árabes como cúmplices desta opressão, são cada vez mais odiadas por seu próprio povo. A família reinante hashemita da Jordânia manipulou os distritos eleitorais para as eleições parlamentares de novembro, assegurando uma maior representação aos distritos rurais pouco povoados do que aos urbanos, onde dominam os jordanianos de origem palestina.

15. As consequências da ocupação do Iraque mudaram o equilíbrio de forças da região, com o Irã e o chamado “Arco Xiita” fortalecidos. Além disso, com uma população de 72 milhões e as maiores forças armadas da OTAN depois dos EUA, a Turquia é uma potência regional em ascensão e deseja jogar um papel maior no Oriente Médio. O regime do AKP usa a posição geoestratégica vital do país para se equilibrar entre as regiões e as potências globais e locais.

16. Como esboçado no documento de Relações Mundiais, o imperialismo não pode impor de fora uma solução duradoura nem no Iraque nem no Afeganistão. Depois dos anos da política externa de Bush, o caráter da intervenção imperialista dos EUA teve que mudar. Mas os EUA continuam, até agora, a maior potência militar mundial, e continuarão a intervir para salvaguardar seus interesses estratégicos militares e econômicos. Um ataque estadunidense ao Irã, possivelmente com a cooperação israelense (ou um ataque por Israel "sozinha") continua uma possibilidade. As repercussões sociais, políticas e militares de tal ataque seriam enormes, na região e além. Inicialmente, um ataque estadunidense-israelense causaria uma eclosão de indignação nacionalista no Irã e também inflamaria o nacionalismo árabe, o anti-imperialismo e o sentimento anti-Israel em toda a região. A Guarda Revolucionária iraniana e os aliados regionais de Teerã, como o Hizbollah, poderiam empreender ações militares em retaliação. Sob enorme pressão de suas próprias populações, Irã e os países árabes produtores de petróleo poderiam temporariamente cortar ou limitar suas exportações de petróleo, adicionando outro fator desestabilizante à crise econômica mundial.


Iêmen e Somália

17. Os EUA estão cada vez enroscados na Somália e Iêmen, sem qualquer perspectiva de resolver a crise. Os EUA sustentam o regime islâmico “moderado” de Sharif Ahmed, na Somália, que impôs a lei da Sharia, embora seu poder atue em não mais do que “algumas ruas imundas da capital” (The Economist, Londres, 18/09/10). Na verdade, grandes partes do sul e centro da Somália são controladas pela milícia islâmica Shabab (‘Juventude’). Cerca de 20 mil civis fugiram de Mogadíscio esse ano por causa dos conflitos e vários milhares foram mortos ou feridos. Os EUA não querem invadir o país de novo depois da desastrosa intervenção de 1993, mas mesmo uma política mais agressiva sua poderia explodir antes do tempo, tornando a Somália o próximo “foco da jihad global”.

18. A ‘al-Qaeda da Península Arábica’ (AQAP) baseada no Iêmen é agora considerada pelos serviços de inteligência britânicos como uma ameaça terrorista tão grande quanto à do que vem do Paquistão e Afeganistão. Não é difícil ver por que o Iêmen se tornou um foco de ‘jihadistas’. O país mais pobre do Oriente Médio, com quase metade da população vivendo com menos de US$2 ou menos por dia, o Iêmen localiza-se entre alguns dos países mais ricos do mundo, incluindo a Arábia Saudita. O petróleo do Iêmen responde por 90% de suas exportações e três quartos de suas receitas, mas estima-se que a reserva atual do “ouro negro” seque em 2017. O desemprego está em 35% e a população de 23 milhões, metade da qual está abaixo dos 24 anos, pode dobrar até 2035. Sob o governo cleptocrático do presidente Abdullah Salih, o Iêmen sofreu conflitos separatistas no norte e no sul. O presidente Salih usa a ameaça da al-Qaeda e a “segurança” para caçar implacavelmente qualquer oposição separatista no sul e pedir mais apoio da Grã-Bretanha e EUA. Não querendo comprometer tropas em outro pântano militar em potencial, os EUA enviaram US$300 milhões, “metade para desenvolvimento, metade militar”, para o regime de Salih. Relatos da imprensa afirmam que a Casa Branca está preparando para aumentar suas “operações especiais” no Iêmen, incluindo mais ataques por VANTs (veículo aéreo não tripulado). Isso sem dúvida agirá como um campo de recrutamento para a AQAP. Contudo, os ‘jihadistas’ são menos apoiados no sul do Iêmen. De fato, a maioria dos iemenitas “se preocupam muito mais com terra e dinheiro do que com religião ou ideologia” (Observer, Londres, 31/10/10).

19. No contexto de piora econômica, do vácuo político à frente dos movimentos de massa, da podridão da burguesia neocolonial e da retórica ‘anti-imperialista’ dos islâmicos políticos, os diversos fenômenos do islamismo político e do terrorismo continuarão a ter apelo entre camadas dos setores mais alienados da população da região. Mas as massas também aprendem com suas amargas experiências do Islã “político” e “radical” de direita, como mostram a oposição de massas ao governo dos mulás no Irã e a repulsa generalizada às atrocidades sectárias da al-Qaeda no Iraque. O desenvolvimento da luta de massas dos trabalhadores e a radicalização de classe verão as ideias anticapitalistas e socialistas se desenvolverem e agirem como um poderoso pólo de atração para as massas, assim como uma tendência de contenção ao terrorismo e ao islã político reacionário. Embora esse processo não seja direto, e provavelmente também haverá o desenvolvimento de tendências mais amplas e confusas, como o “pan-arabismo” anti-imperialista e o “pan-islamismo”, e mesmo o possível desenvolvimento do “islamismo de esquerda”, ponderosas batalhas de classe lançarão o terreno para o renascimento das outrora poderosas ideias classistas e socialistas na região. Uma de nossas tarefas neste processo é ajudar o movimento dos trabalhadores a aprender com as lições dos erros e traições dos antigos líderes dos partidos comunistas e outras organizações de massas.


Palestina e Israel

20. Sob grande fanfarra da mídia, o presidente Obama convocou novas “negociações de paz” entre o primeiro ministro israelense Netanyahu e o líder palestino Abbas em setembro de 2010. O “objetivo” das negociações, um suposto “acordo de dois Estados”, na verdade veria as linhas de partição de 1967 mantidas, com Israel mantendo quase 80% da terra, mais parte da Cisjordânia. Os palestinos receberiam um território pequeno e inviável, sem nenhum direito de retorno para os refugiados. Netanyahu deixou claro que Jerusalém continuará sob domínio israelense e não será uma “capital partilhada” e que qualquer Estado palestino será policiado por Israel.

21. Sem dúvida, o governo Obama gostaria de ver um acordo assinado – à custa dos palestinos, é claro – para fortalecer os interesses estadunidenses, incluindo a posição a longo prazo de Israel, seu principal aliado na região. Netanyahu, prensado entre as várias facções do governo de coalizão israelense, incluindo a ultradireita ligada aos assentados, e dentro de seu próprio partido, o Likud, não está preparado para ceder aos desejos estadunidenses, nesta etapa. Contudo, Netanyahu eventualmente pode ceder à pressão dos EUA, que é apoiada por setores da classe dominante israelense, que teme as consequências das tendências demográficas, assim como a posição regional e internacional do capitalismo israelense.

22. A classe dominante israelense está presa em uma armadilha. Ela teme a “bomba relógio demográfica" que pode eventualmente ver a população palestina dentro de Israel se tornar uma maioria. O ministro de segurança, Barak, articulou o problema que a classe dominante enfrenta em fevereiro de 2010: "Enquanto neste território ocidental do Rio Jordão houver somente uma entidade política chamada Israel, ela será ou não-judia ou não-democrática”. Ele continua: “Se os palestinos vivendo na Cisjordânia puderem votar no futuro em eleições israelenses, então Israel se tornará um Estado binacional. De outro lado, se os palestinos não puderem votar, então nos tornaremos um Estado de apartheid... As alternativas nos obrigam a constituir uma fronteira de um Estado que contenha uma maioria judia de um lado e de outro um Estado palestino”.

23. A classe dominante israelense teme que qualquer concessão às massas palestinas apenas reforçará a luta contra a opressão. Mas intensificar a repressão estatal em último caso terá um efeito similar.

24. A ascensão do neoliberalismo em Israel foi decisivo para esmagar a tradicional base de apoio dos principais partidos da classe dominante israelense, eventualmente culminando no total colapso do campo da “esquerda sionista”. O governo Netanyahu, confrontado com a crise histórica do próprio sionismo, é obrigado, ainda mais que os governos anteriores, a se basear num forte militarismo e nacionalismo israelense, assim como na islamofobia e no racismo anti-árabe. Isso tem levado à inclusão de partidos de extrema-direita no governo e em sua crescente influência nos principais partidos tradicionais do establishment. Tal evento significa que esses partidos são ferramentas menos confiáveis para agir no interesse da classe dominante.

25. As “negociações” Israel/Palestinas estão atualmente em suspenso, após o recomeço da construção de “assentamentos” em terras palestinas em 27 de setembro. Mesmo se Netanyahu, sob intensa pressão dos EUA, puder enquadrar a direita o suficiente para manter as atuais negociações “vivas” (até trazendo o partido ‘Kadima’ para a coalizão) a classe dominante israelense cederá o menos possível e assegurará que não haja o mínimo desenvolvimento de um genuíno Estado palestino independente.

26. Entre a população judia, uma camada, especialmente de jovens, é repelida pelas políticas de Netanyahu e da direita, e está começando a se mover para a oposição aberta. Embora ainda pequena em números, essa tendência é significativa.

27. Embora o nacionalismo sionista seja usado para bloquear a luta de classe, especialmente as lutas unidas que podem atravessar a divisão nacional, ocorreram importantes contra-ataques da classe trabalhadora em Israel nos últimos anos. Uma enorme greve de professores do ensino médio, que desafiou o governo em 2007, atingiu o auge com uma mobilização de 100 mil professores, estudantes e apoiadores num comício de solidariedade, onde o chefe do sindicato foi forçado pelo clima a chamar por uma luta mais ampla e por um “Estado de bem estar”. Mesmo a federação sindical Histadrut cresceu em números desde 2006. De 1996 a 2004, a antiga direção do Histadrut foi forçada a chefiar as maiores greves da história de Israel. Após as derrotas dessas lutas, a nova direção conseguiu impor um silêncio sindical sem precedentes desde 2005 (o sindicato de professores não faz parte da Histadrut). Ela fez acordos podres com os patrões e o governo, sob o disfarce de “responsabilidade nacional”. Contudo, como já implícito nos poucos mais significativos exemplos em que a burocracia foi forçada a abrir a válvula de escape nos anos recentes (em alguns casos, devido à influência da nova organização operária – “Poder aos Trabalhadores” – que o CIT ajudou a criar e construir), o silêncio sindical está destinado a acabar e o domínio da burocracia a afrouxar. Esse será especialmente o caso quando a economia israelense for atingida pela recessão, a qual pode ser mais aguda que a última desaceleração no início de 2009. Para ganhar as futuras lutas contra os patrões, os trabalhadores israelenses terão que adotar um programa de solidariedade e luta unificada de trabalhadores judeus e árabes. Isso envolve romper com a agenda da elite dirigente de opressão nacional, ocupação, assentamentos coloniais e agressão militarista contra as massas da região.

28. No momento, a covarde “direção” da Autoridade Palestina (AP), sob pressão do governo dos EUA, ainda está desesperadamente tentando manter as negociações, assim como a passiva Liga Árabe. A realidade é que a atual rodada de (não) negociações não levará a lugar nenhum. Embora possa ser concedido um grau limitado de mais “autogoverno” para os palestinos, em algum ponto – levando até ao anúncio de um suposto “Estado palestino” – com base no capitalismo e no imperialismo nenhuma solução duradoura ou fundamental pode ser dada à questão palestina ou trazer paz para a região. Além disso, tal anúncio pode servir de pretexto para a escalada da repressão contra os palestinos que vivem em Israel ou a um novo ataque militar ao Hamas em Gaza, onde um milhão e meio de pessoas continuam sob cerco brutal, com enormes taxas de pobreza e desemprego. As condições na AP não são muito melhores. Os palestinos vivendo em Israel estão cada vez mais alienados com as medidas discriminatórias, a brutal perseguição e a repressão de qualquer forma de protesto. A isso se soma os ataques físicos da extrema-direita, a crescente pobreza e a tentativa do Estado israelense de alterar o equilíbrio demográfico em detrimento dos palestinos.

29. O exército israelense continua ameaçando lançar ataques militares contra o Hizbollah no Líbano. De fato, mais conflitos e guerras estão implícitas na situação. Como os ataques israelenses contra o Líbano e Gaza, tais conflitos despertarão uma enorme raiva e oposição no mundo árabe e internacionalmente. Ao invés das negociações levarem à paz e justiça, a questão nacional está se tornando mais intratável, levando a novos movimentos e revoltas de massas dos palestinos oprimidos. Mesmo a elite dirigente palestina reconhece isso parcialmente, com alguns dos líderes nacionais ecoando a frustração acumulada das massas quando falam sobre “luta”. É claro, tais líderes tentam usar a ameaça de uma luta de massas renovada para aumentar a pressão sobre Israel e as potências ocidentais para fazer um acordo com eles.

30. Todo ganho significativo para os palestinos foi conquistado pelos movimentos de massa, especialmente a primeira Intifada. A situação atual lança a base para novos levantes de massa. É provável que a luta por direitos sociais e democráticos dos palestinos dentro de Israel seja o foco de uma “3ª Intifada”. A luta de massas dos palestinos, como nas revoltas anteriores, encontrará pronta solidariedade, tanto internacionalmente quanto na região, inclusive entre um setor de trabalhadores e jovens judeus. Contudo, sem uma liderança armada com uma abordagem de classe, o movimento de massas pode acabar empregando métodos contraprodutivos de luta, limitando sua capacidade de minar a repressão brutal do regime israelense. Um programa marxista para resolver a questão nacional, numa base de classe e socialista, é crucial para levar a luta adiante e superar um possível aprofundamento da divisão nacional.

31. O regime do Hamas em Gaza continua a canalizar parcialmente a raiva dos palestinos com suas terríveis condições. Mas sua agenda política islâmica de direita não oferece uma estratégia alternativa viável para os palestinos oprimidos e é cada vez mais questionada por setores da população de Gaza. De fato, o Hamas tem tido negociações secretas com o imperialismo estadunidense e sob seu governo as mulheres são cada vez mais oprimidas, assim como qualquer oposição aberta ao Hamas.

32. A libertação das massas palestinas não pode ser obtida dentro da estrutura do capitalismo. Suas aspirações não podem ser satisfeitas numa luta ao lado dos regimes árabes corruptos e reacionários. Afinal, o regime de Mubarak no Egito é responsável pelo bloqueio da fronteira de Rafah na Gaza, e a classe dominante libanesa pela contínua opressão e discriminação contra os palestinos nos campos de refugiados. A luta pela emancipação precisa se ligar à luta pelo socialismo com base na unidade da classe trabalhadora da região. É apenas através de movimentos de massa unificados dos trabalhadores e pobres da Palestina, e também de Israel, que uma solução será encontrada; se opondo à opressão nacional, aos partidos dos patrões e ao imperialismo; e promovendo a verdadeira autodeterminação dos palestinos – por uma Palestina democrática socialista e um Israel socialista, como parte de uma confederação socialista voluntária e igualitária do Oriente Médio.

33. As posições políticas principistas estabelecidas pelas forças do CIT em Israel e no Líbano, muitas vezes sob condições objetivas muito difíceis, são centrais para preparar o terreno para futuros grandes avanços para o marxismo na região.


Líbano

34. A situação política complicada e altamente instável no Líbano – dominada por partidos sectários pró-mercado e a interferência de potências regionais e imperialistas – foi mostrada pela reviravolta do primeiro ministro Saad El Hariri em setembro sobre o assassinato em 2005 do seu pai Rafik, cinco vezes primeiro ministro. Saad El Hariri agora diz que ele estava errado em apressadamente acusar a Síria pelo carro bomba que matou Rafik, um empresário multibilionário. O assassinato de 2005 iniciou a “Revolução dos Cedros”, apoiada pelo Ocidente, que levou à retirada da “força de paz” síria depois de três décadas de envolvimento direto da Síria no Líbano. Saad El Hariri chegou ao poder durante esses eventos, mas ele e seus aliados têm apenas pequenas maiorias parlamentares. O Hizbollah (cujo prestígio foi realçado depois da guerra israelense de 2006 contra o Líbano), junto com seus aliados, forçou Hariri a compartilhar o poder em 2008. Desde então, as alianças políticas de Hariri se enfraqueceram e seu principal apoiador estrangeiro, a Arábia Saudita, melhorou suas relações com a Síria. Agora o tribunal da ONU que investiga o assassinato de 2005 está apontando o dedo da responsabilidade para o Hizbollah ou um “grupo rebelde” da organização. Tal descoberta seria altamente explosiva e poderia acionar uma nova crise política.

35. Quaisquer que sejam suas diferenças sectárias, todos os partidos libaneses compartilham de políticas sociais e econômicas pró-capitalistas similares. A importante luta dos professores de 2010 mostrou que nenhum dos principais partidos servem aos interesses dos trabalhadores e pobres. Os trabalhadores que entram em novas lutas sindicais, como inevitavelmente farão devido ao programa de privatização e cortes do governo, tirarão a conclusão de que precisam se unir para construir o movimento dos trabalhadores contra as políticas neoliberais e a necessidade de uma alternativa política unificada à pobreza, sectarismo e guerra. Ao desenvolver corajosamente sua plataforma e forças, o CIT no Líbano pode jogar um papel vital neste processo.


Irã

36. O Irã se beneficiou do crescente poder dos xiitas no Iraque e ampliou sua influência na região, como visto na visita de Ahmadinejad ao Líbano em outubro de 2010. Teerã deseja criar um governo iraquiano dominado pelos xiitas. Isso aumentaria as “co-dependências” econômicas e comerciais entre Irã e Iraque e ajudaria a impedir que o Iraque se tornasse uma ameaça militar novamente, como foi sob Saddam, ou seja usado como uma base de lançamento para um ataque estadunidense.

37. Quaisquer que sejam as ameaças externas do imperialismo, em último caso são os eventos internos que serão cruciais para decidir o destino da teocracia iraniana. Devido ao caráter burguês da liderança da oposição e da falta de organizações de massa da classe trabalhadora, o movimento de massas “verde” de 2009 foi reprimido e dispersado, por enquanto, pela força brutal do regime de Ahmadinejad. Mas esse momentoso movimento é apenas o prelúdio para as lutas revolucionárias que se desenvolverão. Milhões saíram às ruas depois das eleições de junho de 2009, que foram amplamente vistas como fraudadas, apesar da brutal repressão da milícia Basij do regime. Houve relatos de soldados desobedecendo ordens de atacar os manifestantes.

38. Em dezembro de 2009, a consciência do movimento desenvolveu-se além da dos seus supostos líderes e houve relatos de crescente radicalização entre os estudantes. Contudo, com o declínio do movimento, a consciência radicalizada retrocedeu e Mousavi e Karroubi mantiveram seu papel de “liderança” da oposição. Mas, como os eventos já indicaram, isso pode mudar de novo, e muito rápido, com base em novas lutas de massa.

39. A principal lição do fracasso do movimento de massas em derrubar o regime é a necessidade urgente de construir organizações independentes da classe trabalhadora. Tais formações de classe apresentariam demandas democráticas (que adquirem um caráter revolucionário em tal situação) e demandas classistas, e empregar as armas da luta de classes, incluindo a greve geral, para assegurar o fim do regime reacionário dos mulás. Camadas da classe média seguiram o movimento de 2009 e alguns setores da classe trabalhadora, especialmente trabalhadores do transporte. Mas esse potencial carecia de uma direção socialista perspicaz e não se desenvolveu em uma greve geral e num movimento de classe poderoso o suficiente para derrubar o regime.

40. Embora Ahmadinejad mantivesse o poder por pouco, sua camarilha mais tarde sofreu um fracionalismo interno, refletindo em parte a situação econômica e social doméstica piorada.

41. As sanções ocidentais ainda vigoram, embora o Irã continue o quinto maior exportador de óleo cru. Mas estima-se que sua produção caia em 15% e as exportações em 25%, até 2015, segundo o Economist (Londres). O plano de Ahmadinejad de cortar os subsídios ao consumidor, que chegam a um quarto do PIB, significa um agudo aumento nos preços dos alimentos, combustíveis e transportes. A perspectiva de débil crescimento econômico, grande desemprego e governo autoritário reacionário, significa que as massas iranianas – tendo experimentado a luta de massas – estão destinadas a tomar esse caminho novamente.

42. A oposição de massas no Irã – confusa e desorientada após a brutal repressão – compreensivelmente ainda possui grandes ilusões na democracia burguesa. É compreensível, dado o legado de três décadas de governo teocrático opressivo, o caráter covarde da oposição de Mousavi e a falta de uma alternativa socialista revolucionária de massas. Mousavi hoje representa uma ala da elite dirigente que, entre outras coisas, quer obter um acordo com o imperialismo dos EUA. Ele também quer aliviar a repressão e conceder algumas reformas democráticas a fim de tentar ampliar a base do regime e deter o movimento de massas. A experiência com o programa e métodos de Mousavi fará com que setores dos trabalhadores e jovens possam abraçar rapidamente métodos de luta e ideias mais radicais. Setores do movimento de massas podem rapidamente superar os limites do programa de Mousavi, que tenta fazer acordos com o regime. Vimos durante o movimento de 2009 como protestos contra as eleições fraudadas se desenvolveram numa luta para derrubar a ditadura. O funeral do aiatolá Hosein Ali Montazeri, no início de 2010, transformou-se em enormes protestos antigoverno, com palavras de ordem inéditas contra o “líder espiritual supremo” linha dura Khamenei.

43. A questão nacional no Irã também ameaça o regime. Nas áreas curdas, grandes manifestações no 1º de Maio e uma greve geral, que foi chamada após o assassinato de um ativista sindical curdo (embora numa base pan-classista) mostraram o caráter explosivo das demandas não resolvidas das massas, incluindo seus direitos nacionais democráticos.

44. O ritmo dos futuros movimentos de massa contra os mulás, claro, é difícil de prever. Mas é certo que, tendo embarcado na luta aberta, embora temporariamente detida, as massas se moverão novamente para derrubar o regime fundamentalista. Se o movimento por direitos democráticos se ligar à luta da classe trabalhadora e dos pobres, o regime pode ser derrubado. O papel da classe trabalhadora será decisivo. Embora as tentativas de organizar sindicatos independentes ou greves sejam brutalmente suprimidas, os condutores de ônibus de Teerã e trabalhadores da usina de açúcar de Haft Tapeh já empreenderam lutas corajosas. Mais trabalhadores, especialmente nas áreas curdas, se envolveram em greves no ano passado.

45. Os movimentos de massa renovados no Irã também terão uma grande influência nos países vizinhos e globalmente. Isso sublinha a necessidade urgente de desenvolver as ideias e a presença do CIT no Oriente Médio, intensificando o trabalho maravilhoso realizado onde o CIT já existe. Os socialistas chamam a classe trabalhadora iraniana e as camadas médias cada vez mais empobrecidas a agirem independentemente da oposição pró-capitalista e das frações da elite dirigente. É preciso aprender com o amargo desapontamento de 1979/80, quando a nova elite usou frases “revolucionárias” e religiosas para tomar e consolidar o poder. Os líderes oposicionistas de hoje gostariam de desviar o potencial poder revolucionário das massas com frases e promessas “democrático-burguesas”. Reconstruir o movimento dos trabalhadores é uma tarefa chave para as massas iranianas.

46. Mesmo se o regime de Ahmadinejad for derrubado e substituído por um regime burguês “pró-democracia” – devido ao caráter pró-capitalista dos líderes de oposição que exploram as ilusões na democracia parlamentar ao estilo ocidental e, mais importante, por causa da falta de uma alternativa socialista – novas lutas de massas dos trabalhadores e jovens irão se desenvolver. Um novo governo capitalista provavelmente iria se apoiar inicialmente nas esperanças e ilusões das massas, mas se tornaria um governo de crise. Apenas um governo dos trabalhadores e pobres pode garantir direitos democráticos e começar a transformação do país rompendo com o domínio da elite e do capitalismo.


Egito

47. Com sua população de 85 milhões, posição geoestratégica no mundo árabe, regime dividido e crescente oposição e conflitos sindicais, o Egito é outro país chave para o desenvolvimento da luta de classes na região. O idoso presidente Mubarak convocou eleições parlamentares, mas para uma data não especificada no final de novembro. Isso é acompanhado impondo barreiras à participação de partidos de oposição e repressão geral contra ativistas, em particular contra apoiadores da Irmandade Muçulmana. O regime tem boas razões para temer eleições livres: na última eleição parlamentar em 2005, apesar da fraude descarada e da violência estatal, viu a Irmandade ganhar um quinto dos assentos embora disputasse apenas um terço delas. Refletindo a oposição cada vez maior de toda a sociedade ao governo de Mubarak (e ao planejado governo nepotista de seu filho, Gamal), abriram-se divisões na Irmandade, com oposicionistas condenando a decisão da organização de concorrer nas eleições, dando legitimidade à farsa eleitoral. Uma campanha de boicote, liderado por Mohammad El Baradei, antigo chefe da “vigilância” nuclear da ONU, ganhou quase um milhão de assinaturas.

48. A situação social e econômica em declínio no Egito e a onda de greves nos anos recentes são as causas básicas da crescente intranquilidade política e divisões entre a elite dirigente. Trabalhadores e jovens enfrentam um amargo futuro de crescente desemprego e aumentos de preços. A inflação alta corrói os padrões de vida e os salários continuam estagnados. Mais de 40% da população vive na pobreza e quase 30% é analfabeta. O fosso entre ricos e pobres se ampliou, com os ricos vivendo em “condomínios fechados” luxuosos e os pobres em favelas urbanas.

49. Ações sindicais e protestos de trabalhadores começaram em dezembro de 2006, com a ocupação de operários da fábrica têxtil de Mahalla (com 28 mil operários, é a maior fábrica do Oriente Médio). Os patrões e o governo foram forçados a admitir melhores salários e condições, inspirando outras greves. As greves contra a privatização e pela renacionalização são altamente significativas, assim como os esforços para criar sindicatos independentes. O regime foi forçado a fazer concessões, incluindo o anúncio do adiamento indefinido do programa de privatização de partes do setor público.

50. Passos corajosos e impressionantes foram tomados para formar sindicatos independentes sob condições de lei marcial. Com o núcleo das greves organizadas principalmente por operários (i.e. trabalhadores da indústria têxtil e fábricas de alumínio), até aqui tem sido uma camada de servidores os que foram capazes de tomar passos na criação de novos sindicatos (i.e. coletores de impostos que conseguiram criar um sindicato independente, professores, administração educacional e correios). Contudo, novas greves de massas e lutas verão outros setores da classe trabalhadora superando a repressão e criando confiança arrastados para a tarefa decisiva de construir organizações de classe independentes.

51. A pressão da classe trabalhadora e a crise social e econômica se refletem nas agudas diferenças internas dentro do regime sobre a sucessão do presidente Mubarak. Parte da elite dirigente, em especial os que representam o exército e a burocracia estatal, não querem que Gamal Mubarak assuma. As divisões do regime estão dando confiança às massas egípcias para lutarem por direitos democráticos. A Irmandade Muçulmana quer ser a principal beneficiária desse processo, mas se opôs a muitas das greves dos anos recentes. Na verdade, seus líderes agem como uma válvula de escape para o establishment, o que tem levado a divisões com aqueles camadas do movimento que se baseiam nas classes médias mais radicalizadas.

52. Na ausência de organizações classistas de massa, grandes camadas do povo egípcio voltam-se para Mohammad El Baradei e sua Associação Nacional pela Mudança. El Baradei é considerado um potencial zebra pelo regime, que bloqueou sua candidatura para as eleições presidenciais de 2012. Em resposta, El Baradei apoiou-se no descontentamento popular. Ele pede por reformas “para impedir uma revolução dos famintos”. Ele lançou uma campanha de boicote às eleições, ligada a demandas democráticas, o que atrai amplo apoio de muitas camadas da sociedade. Isso mostra a vital importância de demandas democráticas transicionais, ligadas à transformação socialista da sociedade, no Egito e Oriente Médio.

53. El Baradei é uma figura um tanto acidental e não se sabe o curso que ele seguirá sob a pressão dos eventos. Mas é certo que o Egito entrou numa nova etapa de importância vital para a luta de classes na região. O regime está cada vez mais dividido e perdendo muito de seu apoio tradicional das camadas mais baixas de profissionais e da burocracia estatal. Após a onda de ações sindicais, as eleições presidenciais de 2012 podem se tornar o principal foco de oposição ao regime, com consequências potencialmente explosivas. Como no Irã em 2009, tentativas de fraudar eleições e repressão estatal podem ser o catalizador para lutas de massa que podem rapidamente se desenvolver para tentativas de derrubar o regime.

54. Todos os regimes autoritários e despóticos da região corretamente temem os movimentos de oposição de massas que se desenvolve no Irã, Egito e outros países, que agiriam como uma inspiração para suas próprias populações oprimidas. Contudo, a menos que a classe trabalhadora tome a liderança de tais movimentos, com um programa classista independente, a oposição de massas pode tomar rumos diferentes. Sem uma liderança socialista, os levantes dos oprimidos no Oriente Médio e no mundo neocolonial podem se manifestar em atos de desespero, como motins e saques.

55. Está claro que entramos em um prolongado processo de crise política, econômica e social no Oriente Médio. Isso significará mais conflitos e guerras, assim como lutas de massa da classe trabalhadora e movimentos revolucionários e contrarrevolucionários. A capacidade da classe trabalhadora de construir e desenvolver organizações de massa independentes, armadas com políticas socialistas, será o fator decisivo no resultado desse processo. O CIT na região, ao desenvolver corajosa e habilidosamente sua análise, programa e números, será apresentado com muitas oportunidades para crescer no tempestuoso período que se abre.  

 
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