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BBB 11: Divulgação da diversidade sexual ou propagação da violência? Imprimir E-mail
Mariana Cristina - 20 de janeiro de 2011

A TV Globo se vangloria por seus programas terem um “compromisso social” ao discutirem temas relevantes para a sociedade, como o uso de drogas, gravidez na adolescência, entre outros. Em seu reality show, o BBB 11, com o pretexto de trazer ao debate o tema da diversidade sexual, mostrou ao vivo como a grande mídia, a serviço da ideologia dominante, pode disseminar e propagar o preconceito.

A falsa ideia de oferecer oportunidade a todos de estarem no BBB encobre a realidade. Entre homens e mulheres brancos bonitos e malhados que estão no BBB 11, também foram convocados a negra passista de escola de samba, a lésbica, o negro gay, o velho gay e a transexual. Se tais pessoas são algo além destes estereótipos construídos socialmente e utilizados e reafirmados pelo programa, isso não sabemos e nunca saberemos se depender da Globo.

A pessoa que mais fomentou discussões dos telespectadores sobre o referido programa é a Ariadna, a transexual. As edições do programa somente levam ao ar as cenas que vão manter o estereótipo dos personagens que o BBB constrói. Omitindo tudo que a Ariadna é, o que ela construiu, o que ela gosta, toda a sua subjetividade é reduzida a um único elemento, estigmatizada, ela deixa de ser a Ariadna (e tudo que isso representa) para ser a transexual do BBB. Longe de ter as mesmas condições que os demais na casa, cenário do programa, de ganhar o enorme prêmio em dinheiro, a Ariadna é a transexual que dança de forma oferecida, a que se insinua, a que é desbocada, a que se prostituiu, um estigma preconceituoso que leva o telespectador a ter asco da Ariadna e dos demais transexuais.

A preocupação desta emissora de TV é discutir temas de relevância social, ou é aumentar a sua audiência a qualquer custo?

Quem assistiu o programa do dia 18/01 não tem dúvida, o BBB explorou a condição sexual da Ariadna para aumentar sua audiência, como de costume, e a tratou como uma aberração de circo, onde os telespectadores ansiosamente esperavam na platéia que ela se revela-se transexual, com direito a contagem regressiva, esperando o momento dela “se assumir”.

Muitas mensagens na internet de homens indignados manifestavam seu repúdio à transexual que “enganava” os homens do programa, expressando seu medo de um dia saírem com um transexual sem saber. Foi esta mesma reação que o Big Brother, Igor, que flertava com a Ariadna na casa teve, quando soube que ela é transexual repetiu muitas vezes, mas “ela não parecia”, se justificando.        

O preconceito e a imposição ao padrão hegemônico de normalidade, que geram a intolerância ao diferente se mostraram presente na formação do primeiro paredão, que contou com as “minorias” do programa, a negra passista, o negro gay e a transexual. Como a corda estoura sempre para o lado mais fraco, o resultado deste paredão já era previsto e a “aberração” foi tirada da casa pelo público.

Sabemos que a tática de dividir para governar nunca sai de moda e cumpre seu papel de segregar e dividir a classe trabalhadora. Entre a população LGBT os transexuais são ainda mais oprimidos e excluídos que os gays, lésbicas e bissexuais. Além de toda sua luta para conseguir a cirurgia reparatória e a mudança de nome, tem que encarar as demais batalhas, conseguir um emprego (na maioria das vezes em telemarketing, pois a pessoa não precisa se expor fisicamente), ser aceito pela família, terminar os estudos.

Considerando o nível de escolaridade da população LGBT, vemos um significativo contraste. Enquanto apenas 23,5% do(a)s transgêneros declaram ter mais de 11 anos de estudo (ensino superior completo ou incompleto), o número de homens homossexuais na mesma situação mais que duplica, subindo para 54,5%. Se 23% dos homens homossexuais afirmam ter ensino superior completo, apenas 2,9% dos transgêneros pudem dizer o mesmo. Muito mais perto do perfil de escolaridade dos homens homossexuais, situam-se as mulheres homossexuais.

A justificativa dada pelo integrante do BBB para votar na Ariadna foi à falta de afinidade com ela. Esta construção social que exclui e segrega quem é diferente do padrão normal se propaga em todas as esferas. A pesquisa "Juventude e Sexualidade", realizada pela UNESCO em 2004, revela que 28% dos alunos do ensino fundamental e médio de São Paulo não gostariam de ter um homossexual entre os colegas de classe, tal percentual aumenta para 41% se consideram apenas os meninos, em outra palavras, não tem “afinidade” com homossexuais. Como vemos, o BBB só ilustra e propaga, o preconceito social difundido.

Este apelo da Globo por audiência ocorre justamente quando aumentam os ataques físicos a população LGBT. O Pesquisador Luiz Motti, Grupo Gay da Bahia, aponta que nunca se matou tanto homossexual como hoje, entre janeiro e dezembro de 2010 ocorreram 235 assassinatos de homossexuais, além dos que não foram contabilizados, isso significa quase uma morte por dia. Esta situação da ao Brasil o título de campeão mundial de crimes de ódio levados ao óbito de gays, lésbicas, travestis e transexuais. 

Se a homossexualidade é tolerada pela mídia é porque o preconceito está tão arraigado que não ameaça o status quo, mostrar homossexuais da TV. Falar contra o preconceito de gênero e de raça ganhou um teor de “politicamente correto” e mesmo que eles continuem a existir (e continuarão até o fim do capitalismo) há uma preocupação social em velá-lo. O preconceito com a população LGBT é escrachado. Uma escola particular fez uma brincadeira que atribuía um filme para cada um de seus professores e para um deles o classificou como Bambi, uma brincadeira infelizmente “normal”, pois se lhe caracterizassem como “neguinho”, ou “escravo” algum professor iria questionar, mas “viadinho” pode. O preconceito contra a população LGBT é muito intrínseco na educação do Brasil, graças as igrejas. A baixo uma mensagem online de um leitor do Estadão, do dia 06/12/10:

“Não sou contra a homossexualidade. Tenho amigos gays, admiráveis. Inteligentes, dignos, bem resolvidos. O que me irrita profundamente é a vi.a da. gem.”     

Como mostra esta fala, a violência vai muito além de agressões físicas. A Coordenadoria de Diversidade Sexual (Cads) de São Paulo divulgou um estudo baseado nas denúncias que receberam entre julho de 2006 e dezembro de 2009 que revela que 78% da violência que atinge a população LGBT é simbólica (sem agressão física). Este tipo de violência além de destruir a vida das pessoas normaliza uma situação de opressão que por ser aceita leva o ódio contra a diversidade sexual até as últimas consequências, como estamos assistindo de camarote no Brasil o enorme número de homicídios de LGBT.

É somente esta a contribuição da TV Globo, aplicar a violência simbólica, normalizar a situação de opressão. Isso só vai mudar quando dissermos que somos mais do que gays, lésbicas, bi e transexuais, somos homens e mulheres, jovens, negros, somos trabalhadores que sabemos na pele o que é ser oprimido e explorado. 

Comentários
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Mauricio de Oliveira Filho  - Preconceitos e capitalismo   |30-01-2011 09:05:54
O preconceito no capitalismo atinge-nos por todos os lados. Há a homofobia? Sim. Há raqcismo?
Sim.
Mas há ainda outras formas de preconceito que são pouco discutidas e/ou desconhecidas. O
preconceito linguistico. Ora, pra além de todas as críticas ao lulismo, quantas pessoas não
resumiam suas críticas ao Lula ao fato de ele ser "analfabeto?" Quem não se lembra do
"Seu Creysson", do Casseta e Planeta.
O preconceito social. Há alguns anos, Jo Soares
divertia seu público mostrando peculiaridades de cidades do interior do Brasil, rindo-se e fazendo
rir. Ora, quem ri da cultura alheia, julga a sua o modelo a ser seguido.
Assim, o preconceito é
próprio das elites. Elite econômica, elite social, elite sexual, elite racial, elite
linguistica... Enquanto houver elites, enquanto houver o sentimento de que poucos possam se sobrepor
a muitos, muitos sofrerão preconceito e poucos descansarão em seus lares rindo com Jo Soares.
MARINA GARLEN  - opinião   |13-02-2012 11:31:40
SOU COMPLETAMENTE DE ACORDO COM VC, ELES SÃO HIPÓCRITAS, HOMOFÓBICOS, TRANSFÓBICOS E
LESBOFÓBICOS..
NÃO SÓ ACONTECE NOS BBS MAS TAMBEM NAS NOVELAS GLOBAIS, A DOIS DIAS ATRAS EU
POSTEI UM COMENTARIO E, RELAÇÃO AOS AUTORES DA GLOBO SO NOS PÕE COMO BERRAÇÃO, COMO SE NÃO
TIVÉSSIMOS A CAPACIDADE DE AMAR E SERMOS AMADOS, OU UM GAY OU NUMA TRANS COM UM EMPREGO DESCENTE E
SIM EMPREGADOS OU ESCRAVOS OU UM ATOR CARECTERIZADO DE MULHER FAZENDO O PAPEL DE TRAVESTI, ONDE
TEMOS TANTOS TRAVESTIS TALENTOSOS NO BRASIL, ISSO TAMBEM É UM TIPO DE DISCRIMINAÇÃO DAS BICHONAS
AUTORAS DAS NOVELAS DA GLOBO.
DESCULPE O DESABAFO, MAS MEU FACE É(
marinagarlen@hotmail.com).
ME CHAMO MARINA GARLEN, SOU TRAVESTI A QUASE 30 ANOS, SOU ARTISTAS DE
TEATRO REVISTA OU SEJA DULBLAGEM A 26 ANOS, SOU DE SALVADOR E FAÇO PARTE DO GRUPO
"ATRAS"(ASSOCIAÇÃO DAS TRAVESTIS E TRANSEXUAIS DE SALVADOR).
VAMOS PASSAR A FRENTE, BJIUS
NO CORAÇÃO!!!
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