Seção brasileira do Comitê por uma Internacional dos Trabalhadores

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Bernie Sanders e a construção de uma alternativa de esquerda nos EUA Imprimir E-mail
Marcus Kolbrunner - 17 de fevereiro de 2016

A vitória de Bernie Sanders nas primárias em New Hampshire abalou as eleições presidenciais nos EUA. Pela primeira vez na história dos EUA, um candidato que se diz socialista ganha uma primária em um estado, e com uma grande margem: 60,4% contra 38,0% para Hillary Clinton.

Sanders está ganhando cada vez mais apoio, especialmente entre a juventude, da qual obteve 83% em New Hampshire. Ele ganha apoio por causa de seu programa radical, defendendo uma “revolução política” contra a “classe dos bilionários”, saúde e educação públicas e gratuitas, taxação dos ricos, divisão dos grandes bancos, fim do encarceramento em massa de jovens negros, etc.

E os bancos sentem a ameaça. Recentemente, o chefe do banco Goldmann Sachs, Lloyd Blankfein, disse que a campanha de Sanders significa um “momento perigoso”.

Nenhum candidato a presidente tem conseguido mobilizar mais participantes nos comícios, muitos deles contando com dezenas de milhares de pessoas. Ele é o candidato a presidente que contou com mais doações da história até esse ponto da campanha, ultrapassando o recorde anterior de Obama. Mais de 3,5 milhões de pessoas fizeram doações a sua campanha, em média menos de 30 dólares (120 reais). Ele não aceita doações de empresas, enquanto Hillary Clinton recebe milhões de grandes corporações.

A grande contradição de sua campanha é o fato de ele falar de uma revolução política contra os grandes partidos que defendem os interesses das grandes empresas, mas se candidatando por um deles, o Partido Democrata. Ele também anunciou que vai apoiar a Hillary Clinton caso perca as primárias, apesar de denunciá-la como representante dos interesses empresariais.

Crescente radicalização nos EUA

O apoio à campanha de Bernie Sanders está relacionada à crescente radicalização nos EUA nos últimos anos. A profunda crise econômica que começou em 2007-2008, o fracasso de Obama em cumprir as promessas que geraram certo entusiasmo com o primeiro presidente negro eleito no país, junto com as lutas internacionais como a Primavera Árabe em 2011 e o movimento dos Indignados na Europa, impulsionou uma radicalização, principalmente na juventude. Já em 2011 vimos o movimento “Ocupe Wall Street”, com as ocupações no centro financeiro de Nova Iorque, que se espalhou pelo país. Nas pesquisas, uma maioria da juventude agora diz preferir o socialismo acima do capitalismo.

A frágil recuperação econômica, que diminuiu o desemprego, mas com todo o aumento de renda ficando com os 5% mais ricos, levou a uma onda de lutas pelo aumento do salário mínimo para 15 dólares por hora. A vitória de Kshama Sawant em 2014 em Seattle, a primeira vereadora socialista na cidade em mais de 100 anos, ajudou a conquistar esse salário mínimo na cidade, o que foi seguido por várias outras pelo país. Kshama é militante da Socialist Alternative (Alternativa Socialista), grupo ligado ao Comitê por uma Internacional do Trabalhadores, mesma organização internacional à qual a LSR pertence.

Com o assassinato de Michael Brown em Ferguson em agosto de 2014, explodiu uma onda de protestos contra as mortes de jovens negros pela polícia racista no país inteiro, com o lema “Black lives matter” (Vidas negras importam).

É nesse contexto que surge a candidatura de Bernie Sanders, que se tornou socialista na sua juventude, se elegeu prefeito em Burlington (estado de Vermont) e depois deputado e senador como independente, mas com certa relação com o Partido Democrata.

Espaço para uma nova alternativa

Já em 2012, a Socialist Alternative tinha colocado que havia espaço para uma nova alternativa política, um partido dos “99%” contra os dois partidos dos “1%” (democratas e republicanos). O Socialist Alternative defendeu que o movimento Ocupe deveria lançar 100 candidatos ao redor do país para levantar a ideia de um novo partido. Para dar o exemplo, lançaram a candidatura de Kshama Sawant.

Quando Bernie Sanders disse que iria se candidatar, o Socialist Alternative defendeu que ele deveria fazer isso como independente, rompendo a lógica do “mal-menor” que perpetua o domínio do bipartidarismo burguês. Infelizmente, Sanders se filiou aos democratas e se lançou candidato contra Hillary Clinton, ex-secretária de estado (que lida com política externa) do governo Obama.

Além de inevitavelmente criar ilusões nos democratas, como diversas figuras de esquerda, sindicalistas e outros já fizeram muitas vezes, essa é uma disputa que é praticamente impossível de ganhar. Além de concorrer contra todo o aparato do Partido Democrata, com seus apoiadores nas grandes empresas, mídias, sindicatos burocratizados, etc., Sanders pode até ganhar a maioria dos votos nas primárias, mas pode não levar, por causa do sistema de “superdelegados”. Dos 4760 delegados que irão se reunir em julho desse ano, 15% são delegados “natos”, composto por figuras públicas, governadores, deputados, senadores e membros da direção nacional do partido. Dos “superdelegados” que se posicionaram até agora, 97% disseram que vão apoiar Hillary Clinton. No estado de New Hampshire, por exemplo, apesar de Sanders obter 22 pontos percentuais a mais que Clinton, ele levou a mesma quantidade de delegados desse estado, por causa dos “superdelegados”.

Qual deveria ser a atitude dos socialistas?

Nessa situação, qual deveria ser a posição dos socialistas? Alguns na esquerda acham que a linha deve ser de simplesmente denunciar a candidatura de Sanders como uma armadilha. Nós discordamos.

A linha do Socialist Alternative tem sido clara: defendemos a construção de um partido dos trabalhadores, que representa a revolta contra os partidos da ordem capitalista, sem rabo preso com as grandes empresas, que lute por uma alternativa socialista. Durante o movimento Ocupe, apesar do sentimento antipartido, natural entre muitos jovens, levantamos a palavra de ordem: “Wall Street tem dois partidos, precisamos de um nosso”. Essa ideia da necessidade de um partido novo tem apoio nas pesquisas, que mostra que mais de 60% da população quer uma terceira opção.

Apesar de ter grandes discordâncias com a política de Sanders, por exemplo, na política externa (apoio dele a ações militares dos EUA, mesmo se ele se opôs a várias das guerras, o apoio dele a Israel, etc.) e discordar com a tática de se candidatar nas prévias dos Democratas, é inegável que a campanha dele hoje é o principal pólo de atração para essa nova geração que busca uma alternativa.

Sanders está longe do radicalismo de sua juventude, mas está ajudando a radicalizar uma nova geração. São centenas de milhares que estão se engajando na campanha dele, muitos sem ter ilusões nos democratas. O Socialist Alternative tirou a conclusão de que a nossa tarefa é de nos meter no meio desse processo e abrir um diálogo com essa nova camada de jovens. Fazem isso colocando abertamente que não são do Partido Democrata, não vão filiar ninguém ao partido e defendendo que ele deve se candidatar como independente quando ele, provavelmente, perder para Clinton. Essa ideia tem apoio entre muitos dos apoiadores de Sanders.

Com isso não ignoramos que uma parte irá seguir a linha de apoiar Clinton, ao mesmo tempo que um apoio de Sanders a Clinton jogaria um enorme balde de água fria sobre os mais radicais. Mas haverá aqueles que tirarão as conclusões corretas nesse processo.

O aumento do apoio a Sanders e o fato de que a vitória de Clinton não está dada estão acirrando os ataques contra Sanders por parte da direção do partido, que não aceitará que a candidatura dele ganhe. Isso, junto com o sistema armado de “superdelegados”, vai ajudar muitos a tirar a conclusão de que é necessário romper de vez com os Democratas. A presença de socialistas na campanha que façam esse debate desde já vai ajudar esses ativistas a chegarem a essa conclusão, combatendo ilusões nos Democratas e evitando que muitos saiam desiludidos do processo e desistam da luta.

Mesmo que seja improvável - mas não impossível, depende o grau de ataques e manobras que ele sofrerá da direção Dos democratas, além da pressão de baixo de seus apoiadores -, que Sanders mude sua posição sobre apoiar Clinton se ele perder, há milhares de ativistas que podem ser ganhos para uma candidatura alternativa nas próprias eleições, como a de Jill Stein que vai se candidatar pelo Partido Verde (que é bem diferente do Partido Verde brasileiro).

Vincular a campanha eleitoral a lutas concretas

O Socialist Alternative também traz propostas de lutas concretas para os comitês de campanha de base de Sanders. É necessário vincular a campanha eleitoral às lutas concretas: pelo aumento do salário mínimo, pelo Black Lives Matters, etc. Foi essa abordagem que levou à vitória de Kshama Sawant.

O próprio Sanders têm levantado essa ideia. Por exemplo, ele defendeu a realização de uma “marcha de um milhão de estudantes” contra as mensalidades nas universidades.

Sanders, além de levantar o interesse pelo socialismo, levanta a ideia de que não basta apenas votar e que é necessária uma “revolução”. Como diz ele: “Isso não se trata de Bernie Sanders. Você pode ter o melhor presidente da história, mas essa pessoa não vai ser capaz de resolver os problemas que enfrentamos se não houver um movimento de massas, uma revolução política nesse país. Nesse momento só são colocados em votação propostas de leis que têm o apoio do grande capital, de Wall Street, das empresas farmacêuticas. A única maneira pela qual podemos ganhar e transformar a América será quando milhões de pessoas se levantarem como vocês estão fazendo hoje e disserem: ‘Chega! Esse país pertence a todos nós e não a um punhado de bilionários’.”

É certo que já houve candidaturas de esquerda dos Democratas que só serviram para trazer apoio ao partido de uma camada mais radical, como as candidaturas de Jesse Jackson em 1984 e 1988. Mas o contexto é diferente. A crise dos partidos políticos hoje é mais profunda. Jesse Jackson também concorreu em um contexto de guerra fria em que falar de revolução e socialismo era sacrilégio.

Crise do bipartidarismo

Um reflexo da crescente crise do bipartidarismo é o grande apoio das bases aos candidatos que não têm aprovação da direção dos Democratas (Sanders), mas também dos Republicanos (Donald Trump, Ted Cruz e outros). Existe a possibilidade de Donald Trump sair como candidato independente se ele se sentir barrado pelos Republicanos. O ex-prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg, outro bilionário, diz que está pensando em talvez se candidatar como independente, se Sanders ganhar as primárias. Se Sanders ganhar, o próprio aparato partidário Dos democratas irá sabotar sua campanha e ajudar o processo de rompimento do partido.

Está se aproximando o momento em que o sistema bipartidário desmoronará, como temos visto em vários países ao redor do mundo, mais recentemente nas eleições espanholas.

Há uma urgência para criar uma alternativa de esquerda, se não uma camada será atraída por “radicais” de direita, como Donald Trump, que fomentam uma política racista e reacionária. Isso passa por derrotar a direção dos Democratas e construir um verdadeiro partido de trabalhadores. Com todas as contradições, a campanha de Sanders pode ser um passo importante nessa direção, se soubermos evitar cair em um apoio acrítico e oportunista de um lado, ou num sectarismo estéril no outro, sabendo dialogar com uma nova camada de jovens, aberta para as ideais socialistas como não vemos há décadas nos EUA.

 
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