Seção brasileira do Comitê por uma Internacional dos Trabalhadores

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Capitalismo mundial em profunda crise Imprimir E-mail
Comitê Executivo Internacional do CIT - 16 de dezembro de 2016

A reunião do Comitê Executivo Internacional do CIT, realizada entre 28/11 e 03/12, votou esse documento sobre a situação política no mundo. Já publicamos um documento específico sobre a América Latina. Em breve publicaremos os outros documentos votados, sobre a Europa e o Oriente Médio.

Nosso Congresso Mundial ocorreu há menos de um ano e aprovou um extenso documento sobre as perspectivas mundiais. A declaração com adendos circulou entre todas as seções e foi divulgado em nosso website. Portanto, não é possível e nem necessário produzir um novo e abrangente documento que cubra todos os tópicos daquele documento. O texto a seguir representa um sumário dos eventos importantes que ocorreram desde então e as lições que o CIT e o movimento dos trabalhadores mundial podem aprender com eles, preparando-se para o futuro, incluindo o futuro próximo.

A crise do capitalismo mundial aprofundou-se e os estrategistas burgueses estão cheios de presságios sobre as perspectivas do seu sistema ainda maiores do que na época do Congresso Mundial. Um tema constante é a falta de “legitimidade” do capitalismo: na esfera econômica, nas relações mundiais, na questão do meio ambiente, da mudança climática e em seus reflexos sociais e políticos. Acima de tudo, há um medo real, embora não seja verbalizado em grande parte, de que os fracassos óbvios do capitalismo signifiquem que estejamos vivendo “na beira do vulcão”; os burgueses falam de levantes de massas e até de mudanças revolucionárias.


Oriente Médio

Isso apesar das características reacionárias sintetizadas na intratável crise da Síria e do Oriente Médio, com seu profundo sectarismo religioso, carnificina mútua de inocentes de ambos os lados e o consequente êxodo em massa dos refugiados, buscando segurança e uma vida melhor. Isso tornou o Mediterrâneo num túmulo para dezenas de milhares. Mesmo que eles eventualmente consigam chegar à “segurança” da Europa, são recebidos com cada vez mais cercas, muros e arame farpado, uma zombaria ao “livre movimento de pessoas”, uma suposta pedra angular da União Europeia.

A guerra e suas consequências nos países vizinhos possuem um elemento, em menor escala, da Primeira Guerra Mundial. Ela já dura seis anos, sem nenhum fim à vista. As “grandes potências” mundiais estão todas envolvidas, Rússia e EUA em particular, junto com seus “aliados” locais, mas nem elas, nem os sangrentos jihadistas com seus métodos de cunho fascista oferecem qualquer solução a longo prazo. Apenas a classe trabalhadora e um movimento dos trabalhadores renascido na região, em colaboração com o movimento dos trabalhadores internacionalmente, podem oferecer uma saída desse pântano sangrento através da unidade de classe e de uma mudança socialista.


Declínio do imperialismo americano e relações entre as grandes potências

A impotência dessas grandes potências em impor uma solução é em si mesma um reflexo da surpreendente e rápida mudanças nas relações mundiais, em particular o relativo declínio do imperialismo americano. A filosofia do “fim da história”, o mantra dominante após o colapso do stalinismo, há muito foi desacreditada. Passaram-se apenas 13 anos desde a guerra do Iraque, quando o imperialismo formulou a doutrina do mundo “unipolar” e buscou reforçar isso com a doutrina militar da “dominância de pleno espectro”, que significava que o mundo seria obrigado a dançar conforme a música militar e política unilateral do imperialismo dos EUA.

Contudo, isso desde então deu lugar a uma doutrina multipolar, com os EUA forçados a colaborar com a Rússia e China. Os EUA foram obrigados a reconhecer o alcance militar da Rússia, apesar de sua fraqueza econômica, no Oriente Médio, baseado nos recursos e rendimentos de petróleo, assim como uma ainda ascendente China, com sua força econômica junto com um crescente reforço militar, especialmente, mas não exclusivamente, na Ásia.

No multifacetado conflito sírio, embora apoiando “procuradores” adversários, os EUA e a Rússia foram forçados a colaborar contra o Daesh/Estado Islâmico, embora ao mesmo tempo impelidos a golpear um ao outro, como criminosos acorrentados numa carroça. Pequenos choques militares entre Rússia e os EUA não podem ser completamente descartados, dadas as crescentes tensões.

Em outras regiões elas já se chocam, como na Ucrânia e agora nos países bálticos, onde os EUA são vistos corretamente como tentando mais uma vez circundar a Rússia através da expansão da Otan. Contudo, isso não é uma reedição da “Guerra Fria”, que era um conflito entre dois sistemas sociais antagônicos, uma economia estatal planificada burocraticamente e o capitalismo.

O conflito agora é entre dois Estados capitalistas imperialistas, por poder, riquezas e prestígio, assim como posições militares e estratégicas. Mas isso não resultará numa nova guerra mundial, como sugerem até alguns comentaristas burgueses, embora choques militares convencionais entre as duas potências nucleares, mesmo sérios, não possam ser completamente descartados. Os EUA, sem dúvida, tentarão minar e limitar o poder russo, assim como com a China em relação à Ásia e outros lugares. Mas é mais provável que isso tome a forma de “contenções”, como foi o caso durante a Guerra Fria, na forma de sanções econômicas e outras do tipo. Elas foram aplicadas contra a Rússia após a guerra na Ucrânia e a incorporação da Crimeia.


Mar da China Meridional

O “giro” para o Pacífico que Obama lançou tem o mesmo objetivo de reforçar o poder econômico e a influência militar do imperialismo americano às custas da China na região. Mas os EUA não terão isso a seu bel-prazer. Num conflito com a China ele é visto como mais fraco do que antes, especialmente porque Obama não foi capaz de ganhar um apoio esmagador na região para seu tratado de Parceria Transpacífico (TPP). Além disso, na campanha presidencial ele enfrentou crescente oposição dentro dos próprios EUA a esse acordo, assim como para a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP) com a Europa. Os trabalhadores estadunidenses temem mais hemorragia de empregos caso esses acordos sejam implementados.

Na Ásia, até um outrora aliado leal dos EUA, as Filipinas, distanciou-se dos EUA. Duterte, o presidente sedento de sangue que se comparou a Hitler, ameaçou realizar seu próprio “giro” para a China.

Sem dúvida, isso é uma tentativa de Duterte de manobrar entre América e China para obter vantagem para as Filipinas e para si mesmo. Mas também reflete a mudança nas relações entre EUA e China na região. O primeiro ainda é potência militar dominante. Mas a China a está o alcançando rapidamente. Além disso, já houve alguns choques no Mar da China Meridional – 30% do comércio mundial passa por essa área – e é provável que aumentem à medida que cresce a disputa por poder e dominação na região.

Agora, enfrentamos uma desigual dominação “tripolar” mundial, com os EUA, China e Rússia tentando dar as cartas. Os EUA continuam na liderança em virtude de sua força econômica e militar ainda preeminentes. Mas, com base nas tendências atuais, a China provavelmente emergirá como a potência mundial dominante. Mas isso por sua vez dependerá de como a China irá se desenvolver econômica, social e politicamente no curto e médio prazo.


China

“A China ficará velha antes de se tornar rica?” é uma questão pertinente, dada sua demografia, que agora abandonou a política de “uma criança” que historicamente segurava seu crescimento populacional. Em termos econômicos simples, a China está destinada a superar os EUA, como foi comentado várias vezes. Mas a posição econômica global não se mede apenas pelo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), é também uma questão de produtividade e poder de compra. Neste aspecto, a China está muito atrás dos EUA, embora tenha havido um crescimento significativo da classe média, como tem sido o caso de muitos dos países “desenvolvidos” do mundo neocolonial.

Não menos inevitável serão os levantes de massas, como a revolta de Wukan, que podem aparecer muito rapidamente, mesmo no próximo período. O crescimento diminuiu e o comércio com o resto do mundo se contraiu de forma significativa. A maioria dos comentaristas burgueses mais informados chegaram tardiamente à mesma conclusão que nós e agora descrevem a China como um “capitalismo de Estado”. Apesar das muitas resoluções e declarações do regime de Beijing sobre “se mover rumo ao mercado”, o “desmantelamento do setor estatal” ainda não foi implementado totalmente. Isso significa que o Estado tem sido capaz de intervir diretamente de um modo que não é possível ao capitalismo de “livre mercado” dos EUA e Europa.

Graças a isso, o regime, especialmente após a crise mundial de 2007-08, foi capaz de injetar crédito a uma escala monumental, o que por sua vez produziu uma dívida em relação ao PIB de 270%, o que sob um regime capitalista “puro” no Ocidente já teria causado um grande colapso, nas linhas da Grécia. No passado, $1 de crédito produzia $1 de crescimento. Agora, é preciso $6 de crédito para gerar o mesmo efeito, $ 1 de crescimento!

Isso aparentemente permitiu à China desafiar as leis da gravidade econômica e continuar a crescer, embora a um ritmo menor do que dos números bombásticos do passado. Isso por sua vez significou que alguns dos países do mundo neocolonial ligados ao boom das commodities, facilitado pelo crescimento da indústria chinesa, puderam seguir adiante enquanto a Europa e a América, em particular, e o resto do mundo ainda estão sofrendo os efeitos da crise de 2007-08.

Mas isso agora é coisa do passado. Muito além dos levantes e eventos revolucionários que irão ocorrer na própria China, a estagnação econômica mundial já teve, e continuará a ter, um efeito devastador sobre o mundo neocolonial. A suposta “estabilidade” recém-encontrada do mundo neocolonial era uma quimera que ignorava a pobreza e sofrimento das massas. Mas até isso será superado pela selvageria do capitalismo em uma nova crise.


África

A África já viu protestos de massas, como os eventos revolucionários do Congo, onde uma greve geral vitoriosa deu “cartão amarelo” ao regime de Kabila depois de uma crise de dois anos que varreu o país. A Nigéria produtora de petróleo, o país mais populoso da África, com quase 200 milhões de pessoas, afundou em uma crise severa como resultado da contração do preço do petróleo e a consequente diminuição das receitas do Estado. O próprio presidente Buhari resumiu a rapidez com que a crise tomou o país quando declarou com franqueza: “Subitamente, a Nigéria parece ser um país pobre”.

Ele poderia estar lamentando não apenas o destino da Nigéria, mas as perspectivas futuras de todo o continente sob o capitalismo e a dominação imperialista. A população da Nigéria dobrou em 30 anos e se prevê que o continente como um todo irá dobrar para 2,5 bilhões de pessoas em 2050! Metade da população viverá nas cidades, com predomínio dos jovens, o que significará enormes pressões e colapso sem a criação de novos empregos, desenvolvimento da infraestrutura, o que em grande escala é improvável nesta nova fase da crise capitalista.

Temos que lembrar que a revolução norte-africana – a chamada “Primavera Árabe” – foi energizada pelo que os sociólogos chamam de “saliência jovem” – populações jovens combinadas com desemprego em massa. A presença destes dois fatores em enorme escala, que está além da capacidade do capitalismo de solucionar, é quase uma garantia de levantes de massas e revoluções. Os primeiros sinais disso estão presentes em uma série de países, nos quais devemos buscar construir nossa influência. Contudo, o fracasso dos líderes sindicais nigerianos de organizar com sucesso a greve geral de maio último e os crescentes conflitos e insurgências étnicas e religiosas deste país, são alertas do que pode se desenvolver se o movimento dos trabalhadores não oferecer uma saída. O CIT tem que se posicionar para intervir em nível continental no que será o período mais importante para o continente africano.

Já alcançamos um grande efeito em dois dos mais importantes países da África Sub-Saariana, Nigéria e África do Sul, os mais desenvolvidos industrialmente no momento e além disso, que possuem fortes tradições revolucionárias operárias.

A Nigéria já mostra o futuro provável do continente africano, com 50% dos seus jovens desempregados, ociosos ou em empregos precários ou de meio período. Estima-se que o continente africano terá a maior população em idade de trabalhar do mundo em 2034! A questão que agora está posta é: quantos deles terão pleno emprego?

Com a presença de uma forte seção do CIT na Nigéria podemos jogar um papel crucial nos levantes que podem ocorrer. Mas não apenas na Nigéria. Não há um só regime estável na África Sub-Saariana.

A Etiópia também enfrentou uma revolta de massas, que matou 500 pessoas, contra o governo, baseado numa minoria de só 6% da população, os tigrayans. O país já testemunhou um “momento Praça Tiananmen”, que apenas serviu para abastecer o ressentimento e oposição ao regime entre a maioria do povo. Parece que o modelo a ser imitado pelo atual grupo dirigente da Etiópia é a China, isso resultou em um espetacular crescimento médio anual de mais de 9% desde 2000, o que segundo o FMI aumentou a renda per capita em quatro vezes. Isso foi abastecido pelo investimento estrangeiro da China, Turquia e EUA. Mas no processo isso ajudou a criar a classe trabalhadora que pode jogar um papel vital nos levantes revolucionários que se aproximam.

A África do Sul ocupa para nós, e para toda a África, especialmente a classe trabalhadora, uma posição central como o país mais industrializado do continente. A primeira vitória do CNA e o desenvolvimento inicial de organizações independentes da classe trabalhadora, os sindicatos, representaram um grande passo adiante. Isso foi positivo e manteve entre as massas sul-africanas a perspectiva de se livrarem do odiado capitalismo do apartheid através do socialismo. A Cosatu, a central sindical, inicialmente foi um polo de atração que unificou o movimento, agora girou à direita e se dividiu. O sindicato dos metalúrgicos, NUMSA, atualmente oferece o melhor caminho para construir um movimento dos trabalhadores independente.

A direção do CNA já tinha começado a girar à direita quando Mandela estava na prisão, e empregou todos os seus esforços para desencaminhar os magníficos movimentos revolucionários do país. O regime de Zuma representa a degeneração do CNA culminando na corrupção orgânica que inclui palácios obscenos, uma zombaria para a pobreza ainda mais obscena da massa da classe trabalhadora e dos jovens.

O voto no CNA caiu nas eleições locais deste ano para seu pior resultado, com um clamor crescente pela saída de Zuma. O governo está sitiado à esquerda por greves motivadas pelo aumento do custo de vida e também pelos estudantes, que conduziram greves vitoriosas contra as taxas universitárias e contra o sistema educacional iníquo. Ele também é desafiado à direita pela vitória da Aliança Democrática – com suas raízes no regime do apartheid – em Joanesburgo e Cape Town.

Os Lutadores da Liberdade Econômica (EFF), liderados pelo antigo líder da juventude do CNA, Malema, também refletiu de uma maneira distorcida um movimento à esquerda. Seu sucesso em parte também é resultado da recusa dos líderes sindicais, em especial do NUMSA, de tomar o caminho claro de um novo partido operário de massas, que o WASP defendeu consistentemente. Quando tal partido for formado, como seguramente será dado o poderoso choque que se aproxima entre as classes na África do Sul, ele poderá ocupar muito do terreno que os EFF atualmente afirmam ser seu.


Sul da Ásia

Um período igualmente perturbador de levantes e conflitos também está posto para a Ásia. Os choques recentes entre Índia, um gigante asiático, e o Paquistão levantaram a perspectiva, ou pelo menos uma ameaça, de guerra entre os dois países pelos territórios disputados da Caxemira. A perspectiva de um confronto é sempre séria, já que ambos possuem armas nucleares, mas é improvável que leve a uma guerra total ou mesmo a um conflito direto limitado.

Com um olho nos EUA, e em suas próprias experiências recentes nas mãos de terroristas, o Primeiro Ministro indiano Modi atacou recentemente o Paquistão como a “mãe do terrorismo”, esperando com isso engendrar apoio e ganhos materiais para a Índia às custas do Paquistão. Há alguma verdade nisso, já que o Paquistão, e em especial seu exército, originalmente nutriu, abasteceu e usou o Talibã no Afeganistão contra a Rússia. Mesmo depois que os russos se retiraram, quando o Talibã e a Al Qaeda se aproveitaram disso, os EUA e o exército paquistanês, em especial seu serviço de inteligência, o ISI, embora fazendo declarações de desaprovação, não tomaram nenhuma ação contra eles.

Na realidade, o Taliban, a partir de sua base no Afeganistão, era útil e necessário como um para-choques contra a Índia. O regime paquistanês também não era avesso a deixar fanáticos terroristas domésticos ocasionalmente lançarem ataques contra a própria Índia. Contudo, agora o exército decidiu esmagar setores do Talibã depois de seus ataques violentos e sangrentos a escolas militares em Peshawar. Isso, combinado com certa industrialização limitada em algumas áreas do Paquistão – financiada pela China – significa que o Talibã e seus primos do Daesh/Estado Islâmico estão sob rédea curta e serão esmagados pelo exército se saírem da linha. Agora, mais uma vez há espaço para um partido e movimentos genuínos da classe trabalhadora.

Na própria Índia, os fogos de artifício econômicos prometidos pela chegada ao poder do governo Modi, como previmos, não se materializaram. Pelo contrário, as condições econômicas das massas não melhoraram mas estagnaram e, em alguns setores, pioraram consideravelmente. Isso, e os ataques às leis trabalhistas, provocaram a recente greve geral de 180 milhões de pessoas. Essa ação evidencia o enorme poder potencial da classe trabalhadora indiana, que foi abafado e anestesiado pelos líderes sindicais. Estes fizeram pouco ou nada para assegurar não apenas a vitória da greve – que ocorreu – mas também para preparar a classe trabalhadora, e com ela as massas indianas empobrecidas, para mais ações contra o apodrecido capitalismo indiano, sobre o qual se apoiam Modi e seu governo.

Um novo sentimento de rebelião, especialmente entre os jovens e dalits, permitiu ao CIT começar a esboçar a estrutura de uma organização nacional efetiva que, se tiver sucesso, agirá como um imã para os melhores e mais sérios lutadores de todo o sub-continente em conjunção com o trabalho do CIT na nova situação que se desenvolve no Sri Lanka.


Malásia

Na Malásia, o governo Najib enfrenta crescente oposição à medida que aumenta os protestos contra sua corrupção pessoal e do sistema como um todo. Até o antigo ex-primeiro ministro Mahatir Mohamad, de 92 anos – um antigo pilar do partido governante UMNO, que governa o país desde a independência da Grã-Bretanha – se colocou contra Najib. Ele até formou um novo partido de oposição, “Bersatu”, e aproximou-se do seu antigo ministro Anwar Ibrahim, que ele prendeu com acusações forjadas de “indecência sexual”.

Estamos bem colocados para intervir nos movimentos de massas que ocorrerão na Malásia, especialmente se houver uma recessão ou pausa no crescimento da economia. Isso é inevitável com o fim do boom das commodities e a redução das importações da China, que já ocorre e pode afetar profundamente a Malásia.


Austrália

O mesmo vale para a Austrália. Embora o impacto da desaceleração da China ainda não tenha sido totalmente sentido, ele o será no próximo período. Já existem divisões se abrindo entre a classe dominante. O recente declínio dos votos do ALP é um indicador das novas possibilidades que se abrem para a luta de classes ali.


Perspectivas para a economia mundial

Como pontuamos antes, os próprios economistas capitalistas reconhecem a inevitabilidade de uma nova recessão ou até uma recessão profunda em certa etapa, embora não entendam plenamente o porquê disso. O que irá ocorrer a curto prazo é mais difícil de antecipar. Há uma profunda moléstia econômica, indicada pela contração do comércio mundial, que no seu auge o seu crescimento era quase duas vezes maior que o crescimento da economia mundial. Agora, o crescimento do comércio mundial em volume é de apenas 1,7%, segundo a OCDE. O crescimento mundial é pequeno comparado com o que foi antes; há “falta de demanda”, que é o problema central. Isso é acentuado pelo crescimento da desigualdade mundial, abastecido pela explosão do crédito e do endividamento, que se elevam ao colossal triplo do PIB mundial! Ao mesmo tempo, há um “excesso de poupança”, um açambarcamento massivo de lucros, em grande parte mantida em “contas no exterior” para evitar taxação!

Uma recessão profunda ou depressão após 2007-2008 foi evitada pelas ações relativamente bem sucedidas dos bancos centrais de sustentar o capitalismo nos EUA e Europa. O Banco Central Europeu também foi instrumental ao insistir que as reservas bancárias deveriam ser acumuladas para impedir uma nova corrida aos bancos. Contudo, isso não evitou o medo com o Deutsche Bank e a ameaça de colapso de outros bancos europeus, especialmente na Itália.

Fatores econômicos sempre jogaram um papel central no equilíbrio de poder entre os diferentes blocos imperialistas. E as perspectivas econômicas que esboçamos no documento anterior foram em grande parte confirmadas. A crise de 2007-08 deixou uma poderosa impressão que ainda tem um profundo efeito sobre a consciência de todas as classes, até dos próprios capitalistas. Oito anos atrás, o colapso de Wall Street afundou a economia mundial numa recessão econômica que resultou na perda de trilhões de dólares – 22 trilhões de dólares no caso dos EUA ao longo de cinco anos – com milhões de trabalhadores demitidos (8,8 milhões nos EUA, 1,2 milhões no Reino Unido).

Os governos e políticos burgueses prometeram que as coisas iriam mudar. Contudo, nas palavras do jornal Guardian: “Quase uma década depois, o que mais chama a atenção é o quão pouco mudou hoje”. Não ocorreu uma recuperação generalizada, apesar das muitas medidas de “emergência” que foram tomadas pelos governos e bancos centrais: “afrouxamento monetário”, taxas de juros ineditamente baixas, intervenções dos bancos centrais para sustentar o setor bancário etc.

Onde a produção econômica absoluta retornou aos níveis pré-2008, e em alguns países ultrapassou esse nível, isso não levou à eliminação do desemprego em massa. A Grécia e o sul da Europa está nas garras de uma depressão tão ruim quanto os anos 1930 e do empobrecimento generalizado que deriva disso. Até nos EUA, onde um total de 15 milhões de novos empregos foram criados desde 2010, isso não impediu a piora das condições de vida porque esses empregos, em sua maioria são mal pagos, resultado da chamada economia do “bico”. Mais de 60% da força de trabalho norte-americana se sente pior e agora mais conscientemente “classe trabalhadora” do que antes.


Perspectivas para os EUA

Todos esses fatores acima levaram ao surgimento tanto do populismo de esquerda de Bernie Sanders quanto ao populismo de direita do demagógico Trump. As consequências disso são sérias para o imperialismo americano e o mundo, tanto a curto prazo quanto para o futuro a longo prazo do capitalismo dos EUA e seu sistema político. O desenvolvimento da classe trabalhadora estadunidense rumo a uma representação política independente não será o menor dos seus efeitos.

As eleições presidenciais e a vitória de Trump representam um ponto de inflexão para os EUA. Ambos os candidatos eram amplamente desprezados, as escolhas à disposição eram a alternativa do “mal menor”! Pesquisas revelavam que apenas um em cada três achavam que Hillary Clinton realmente acreditava no que dizia. A maioria acreditava que Trump realmente acreditava em seus delírios! Em outras palavras, quase ninguém acreditava que qualquer candidato fosse genuíno, mas apenas posavam para ganhar votos. O normalmente contido Financial Times simplesmente descreveu Trump como um “gambá”!

A partir da vitória de Trump, há um medo real que possa se seguir um novo período de isolacionismo, ou pelo menos um recuo parcial, para a “Fortaleza América”. Isso também poderia levar à “Fortaleza Europa”, “Fortaleza China”, Ásia, Japão etc., uma guerra comercial que iria repercutir economicamente nos EUA e em todo o mundo. O establishment republicano temia pelo próprio futuro de seu partido se Trump entrasse na Casa Branca.  

Alertas estridentes já foram dados de figuras do establishment republicano como John McCain. Ele pontuou no Financial Times (7 de dezembro de 2016): “Um em cada 12 empregos americanos depende do comércio internacional. Argumentar contra o comércio global é como declarar oposição ao tempo. Ele continua quer você goste ou não. Mais de 95% dos consumidores mundiais vivem fora dos EUA”. Eles irão exercer uma enorme pressão sobre Trump para que ele reverta ou pelo menos atenue suas propostas de “punir” a China e outros rivais econômicos, por medo de detonar uma nova crise ou recessão.

Trump ganhou no Colégio Eleitoral mas perdeu na votação popular por mais de 2,6 milhões de votos. Portanto, ele carece de verdadeira “legitimidade” política para qualquer medida anti-trabalhadores. Nas primeiras semanas após sua eleição, Trump e seus nomeados ao governo, cheio de bilionários, indicaram que vão atacar os direitos e as condições de vida dos trabalhadores. Como Ronald Reagan, isso provavelmente irá incluir medidas anti-sindicatos como uma legislação de “direito ao trabalho” e demissão de funcionários públicos junto com crescente privatização. A oposição de massas a Trump provavelmente se expressará nos EUA e mundialmente quando ele tomar posse em 20 de janeiro. O cenário está posto para a possibilidade real do eventual desaparecimento do sistema de dois partidos e sua possível substituição por um sistema multipartidário, com essa ideia sendo ventilada cada vez mais até na mídia burguesa. O CIT e nossos correligionários do Alternativa Socialista têm jogado um importante papel nesse processo. O Alternativa Socialista cresceu até se tornar uma das organizações mais influentes da esquerda nos EUA. As oportunidades que se abrirão no próximo período serão ainda maiores.  


Nova crise financeira

Mas não menos importantes são as consequências econômicas do que aconteceu depois da crise financeira no mundo neocolonial. As instituições do capitalismo mundial – OCDE, Unctad etc. – alertaram que o mundo está às vésperas de entrar “na terceira fase da crise financeira”. A crise “subprime” dos EUA foi repetida no mundo neocolonial com a injeção de trilhões de dólares nos “mercados emergentes”. Estima-se que o fluxo de crédito despejado na América Latina em particular, mas também na Ásia e África chega a metade dos títulos e empréstimos bancários da primeira metade da década. 7 trilhões de dólares foram enviados aos “mercados emergentes”. Isso encheu esses países com dívidas que agora estão se tornando impagáveis e que por sua vez pode lançar as bases para um novo movimento de não pagamento. O setor privado não-financeiro de todo o mundo em desenvolvimento possui obrigações de serviço de dívida de 450% do PIB, quase duas vezes mais que o mundo “desenvolvido”.

Isso contribuiu para o colapso econômico que afetou países como Brasil que, como a resolução sobre América Latina irá mostrar, enfrenta sua pior crise econômica em décadas. De fato, as massas brasileiras estão para ser postas de “regime” com os gastos no setor público “congelados” por vinte anos. Isso, com a severa contração da economia, resultará no aumento das tensões de classe. O primeiro reflexo disso tem sido o ressurgimento da direita, com o impeachment de Dilma e a possível condenação judicial de Lula. Isso por sua vez levou a uma polarização da classe trabalhadora em oposição ao golpe parlamentar, com as memórias dos regimes militares de um período relativamente recente ainda presentes.

A América Latina está passando por uma conjuntura complicada e difícil. Isso após o fracasso dos governo de “esquerda” na Venezuela, Bolívia e Equador de levar adiante os ataques ao capitalismo. Ao mesmo tempo há um avanço do processo de restauração capitalista em Cuba. Além disso, os governos de “centro-esquerda” do Brasil e outros países têm sido desacreditados e temos visto a vitória eleitoral dos partidos capitalistas de direita tradicionais. Em certa etapa, isso dará lugar a novos ressurgimentos da esquerda e da luta de classes. Esses processos serão examinados num documento em separado.


Novo sentimento anticapitalista

O turbilhão que surgirá disso também é uma expressão de um novo e crescente sentimento anti-globalização, que forçou até mesmo Hillary Clinton a recuar do TPP, que ela originalmente patrocinou! Isso fará parte de uma hostilidade crescente e maior à desigualdade e ao próprio capitalismo. Os burgueses estão bem conscientes disso, como mostram seus jornais cheios de sobressaltos com a crescente hostilidade para com o capitalismo brutal e atávico.

Eles têm muita sorte que a “grande recessão” tenha sido precedida pelo colapso do stalinismo e pela consequente campanha ideológica burguesa contra o “socialismo” e a ideia do coletivismo operário para governar e organizar a sociedade. Basta lembrar que Fidel Castro comparou o colapso da “União Soviética” ao sol morrendo! Um ponto de referência para a economia planificada, embora controlada por uma elite burocrática, foi desmantelado. Em seu rastro, os partidos “comunistas” e “socialistas” de massas colapsaram, com suas direções desertando para o lado da burguesia. A classe trabalhadora foi desarmada politicamente nas garras desta crise, incapaz nesta etapa de tirar respostas classistas claras. Os marxistas e socialistas genuínos ficaram isolados. Na verdade, a massa dos trabalhadores apresentou uma resistência feroz contra a austeridade: mais de 40 greves gerais na Grécia, movimentos similares na Espanha, Portugal, Itália etc.

Contudo, uma nova crise econômica – que pode ser a segunda em uma década – terá consequências sociais e políticas muito maiores. Não apenas as ideias anticapitalistas ou anti-austeridade, mas sobre socialismo e marxismo, um debate sobre qual tipo de socialismo, mais uma vez se tornarão questões vivas perante grandes audiências. Haverá outras oportunidades, muito maiores, para criar organizações consideráveis, formações de massas que, aprendendo com o passado, podem criar um ponto de referência poderoso para atrair os melhores trabalhadores e jovens.

Os efeitos da crise endêmica levaram a um questionamento sem precedentes até nas fileiras dos próprios capitalistas sobre a viabilidade do seu sistema, com conclusões profundamente pessimistas sobre as perspectivas futuras para o “Ocidente” e a globalização. Até o Economist, que é inabalável em sua defesa da globalização, é obrigado a enfatizar as desvantagens: “Apenas em Londres e seu interior no sudeste a renda real per capita subiu acima do seu nível de antes da crise financeira de 2007-08 e a maioria dos outros países ricos estão no mesmo barco... Os rendimentos reais de dois terços dos domicílios em 25 economias avançadas estacionaram ou caíram entre 2005 e 2014, comparados com 2% nos 50 anos anteriores. Os poucos ganhos numa economia deprimida têm ido para os altos assalariados.

Ao mesmo tempo, tem havido uma concentração e centralização sem precedentes de capital, uma enorme dominação dos monopólios, com 10% das companhias abertas gerando 80% dos lucros. As grandes empresas estadunidenses, as 100 da Fortune, viram sua fatia da riqueza aumentar de 57% para 63% durante a “recessão”. No lar do chamado capitalismo de “livre mercado”, o bilionário hi-tech Peter Thiel declarou sem rodeios: “Competição é para perdedores”.

À luz da tendência muito óbvia para a eliminação do caráter competitivo do capitalismo de outrora, onde a competição jogava um papel central na alocação de capital entre diferentes empresas e indústrias, a própria razão de ser do sistema está sendo posta em questão. Agora, há o reconhecimento declarado de que sem a outrora negada “intervenção estatal” o capitalismo “moderno” não pode funcionar. Agora a nova primeira ministra britânica Theresa May abandonou a doutrina de Thatcher, “não existe isso de sociedade” e sem corar declarou que o Estado precisará intervir. Além disso, completamente contrária ao antigo primeiro ministro Cameron, ela até apelou à “classe trabalhadora” e atacou a “austeridade” em palavras, mas não em atos.


Capitalismo descontrolado

Alguns comentaristas burgueses apontaram o caráter descontrolado do capitalismo atual. Questionam a situação por meio da qual as transações financeiras confiam mais no uso de “algoritmos”, sem muito controle humano, “passivos” e afinados com o enorme aumento na velocidade com que ocorrem as transações financeiras, frequentemente envolvendo pequenas quantidades mas comercializadas aos milhões. Isso demonstra tanto a falta de supervisão real do que está acontecendo quanto o potencial para ações de máquinas sem supervisão de saírem do controle, e provocar artificialmente uma crise, com base em conclusões matemáticas sem controle.

Isso revela o caráter ultrapassado e parasitário do capitalismo hoje, onde não apenas os capitalistas não jogam nenhum papel, nem os administradores do seu capital. Isso aponta para a questão da tecnologia, que o CIT esteve entre os primeiros a sublinhar. A maioria dessa tecnologia, precisamos repetir, tem o potencial de libertar a humanidade, com a condição de que esteja sob o controle da força de trabalho e de uma sociedade socialista. Sem isso, e como já é o caso, ela será uma destruidora de empregos, e novas e violentas armas de guerra através de robôs assassinos etc. Os capitalistas podem usá-la para minar as condições de vida da classe trabalhadora com cortes de salários e desemprego em massa etc. Seu uso produtivo para a maioria depende de quem a possuía e a controla; ela é, em qualquer caso, o produto do gênio da humanidade, primariamente da classe trabalhadora.


Conclusão

A conclusão a ser tirada da análise precedente é que temos todas as oportunidades de crescer substancialmente em grandes partes do mundo com a crise crônica do capitalismo mundial. Não serão apenas das questões econômicas e sociais que se apresentarão oportunidades para intervirmos e ganharmos novas forças. Existem grandes oportunidades sobre o meio ambiente, mulheres, no Black Lives Matter e a luta contra o racismo. Esse pode ser um período crucial para lançarmos as bases para o CIT tornar-se a força trotskista mais importante mundialmente e criar as condições para formações de massas.

 
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