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Lei Rouanet e as oligarquias da cultura Imprimir E-mail
Reginaldo Costa - 19 de abril de 2011
Hegemonicamente, a cultura é considerada uma mercadoria. Assim, como bons empresários, artistas e produtores se unem no garimpo por incentivos fiscais às suas “obras”, não com objetivo de socializar a produção de cultura, mas unicamente como meio de se tornarem ricos. Desde 1991, a instituição da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei nº 8.313 de 23 de dezembro), a popular Lei Rouanet, é um dos principais mecanismos legais para isso. A lei nada mais é que uma forma de isenção fiscal (pessoa jurídica 6% e física 4%) para aqueles que “incentivam a cultura”.

De lá pra cá esta relação do setor privado ampliou-se consideravelmente nas políticas de fomento a cultura e temos hoje um verdadeiro caudilhismo na distribuição de verba para a área de cultura. A Lei Rouanet garante um montante anual de R$ 1 bilhão, oriundo de isenções fiscais de grandes empresas. Mas para onde vai esse dinheiro?

Não é preciso grandes análises para perceber que os grandes investimentos são sempre destinados aos mesmos grupos empresariais e artistas. Formaram uma oligarquia que domina o controle sobre os investimentos em cultura. E o que é pior: não se reflete em uma possibilidade maior de acesso aos trabalhadores pobres, justamente o setor que possui maiores dificuldades de ter acesso aos meios difusores de cultura. Peças, shows de música, CDs e DVDs de artistas renomados recebem fartas quantias, mas o custo de aquisição destes produtos culturais é extremamente caro e pode ser consumido apenas por uma pequena parcela privilegiada da população.


O blog milionário de Maria Bethânia

O caso de Maria Bethânia ganhou notoriedade recentemente na grande mídia sobre o que seria um suposto abuso no uso do dinheiro público, ainda que dentro dos marcos da lei. Longe de ser um caso isolado, Bethânia é um exemplo do que mais acontece em nosso país: justamente o artista que menos precisa de verba para seus trabalhos recebe mais. Bethânia recebeu R$ 1,3 milhão para realizar 365 vídeos de declamação de poesias e postá-las num blog.

Além do disparate que é o valor do financiamento para algo tão simples como um blog, outros absurdos saltam aos olhos. Primeiro, R$ 130 mil será destinado à empresa financiadora, ou seja, o dinheiro que deveria ser usado para garantir a obra artística volta para o bolso da empresa. Bem conveniente. Outra questão maliciosa é que a diretora artística deste megaempreendimento, um blog de poesia, receberá a singela quantia de R$ 600 mil. Curioso é que Bethânia é a diretora artística.

Apesar do estardalhaço da mídia isso é prática comum. Outros queridinhos das grandes corporações de cultura receberam fortunas. Arnaldo Jabor recebeu R$ 12 milhões para fazer seu filme “A Suprema felicidade”; Fernando Deluqui da banda RPM R$ 207 mil para a execução de um DVD e um disco; Gilberto Gil conseguiu R$ 800 mil para a sua turnê; Gal Costa captou R$ 2,2 milhões para um projeto de oito shows e a execução de um DVD dos shows, e o mais escandaloso, o Cirque Du Soleil recebeu R$ 9 milhões e mesmo assim vendeu ingressos a R$ 200!


Parâmetros do mercado

O investimento em cultura segue parâmetros de mercado. Não por acaso 85% dos recursos em cultura no ano 2001 foram no eixo Rio-São Paulo, tendo apenas 2% na região Nordeste. Ou seja, a empresa que entre tantos projetos opta pelo blog de Maria Bethânia deixa sem verba centenas de artistas. A escolha da empresa é meramente comercial, nada tendo a ver com uma perspectiva de política pública de cultura.

Os institutos culturais ligados a bancos e grandes empresas, assim, surgem seguindo esta lógica em busca de mercado e de locais já dotados de infraestrutura cultural como SESC, SENAI, teatros e centros culturais estaduais e municipais. O fato dos investimentos serem baseados em lobbys faz com que estes institutos sempre sejam os responsáveis por centralizar a maior parte dos investimentos, tornando-os alvo de financiamentos praticamente perpétuos.


Caso Bethânia segue a regra

Bethânia é, portanto, nada mais que a regra quando se discute distribuição de verba na área de cultura. O que deve ser debatido e mudado é o método de fomento a cultura no país: se deixaremos a gestão do fomento à cultura a mercê de empresas e artistas-empresários, ou se entidades representativas e movimentos sociais serão os responsáveis por tornar pública e democrática a produção e o acesso às formas de manifestação cultural. O Estado não pode ser apenas um facilitador para que empresas se beneficiem com marketing e isenções fiscais que lhes retornam em forma de lucro e boa imagem perante a sociedade.

Esta mercantilização absoluta da cultura tornou o artista meramente um empresário, submisso ao seu chefe, o empresário cultural. O produtor cultural passa a ser o intérprete do gosto geral, que sob rígidos critérios de marketing empresarial industrializa a manifestação cultural em torno de interesses econômicos particulares. A consequência artística disso é a subordinação dos produtores culturais a um chamado “gosto médio”, ou mesmo nichos específicos de mercado (arte esnobe para os ricos). O conservadorismo, a previsibilidade, a falta de crítica são marcas que explicam o porquê do marasmo de inovações culturais acessíveis ao grande público.


Verba pública para quem precisa

O orçamento da área de cultura deve ser público de fato. Por que ao invés de permitirem que mais de R$ 1 bilhão se perca em manifestações artísticas elitistas, não podemos gerir verba para quem de fato precisa? Por que temos que oferecer a empresas verba pública, se a gestão pública poderia tirar do caminho estes atravessadores da cultura e ampliar as possibilidades de produção cultural?

Há mais em jogo. A tradição coronelista ainda trafega entre vaidades e interesses econômicos no meio artístico. Poucas famílias, grupos empresariais e o mesmo loteamento de sempre também se enraízam na produção cultural. Maria Bethânia é parte disso. E quando Caetano Veloso baba raivosamente em defesa de sua irmã, está apenas nos lembrando que a tradição coronelista ainda é regra também nos versos.

 
  
Comentários
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maria das graças scheuermann  - Lei Rouanet e as oligarquias da cultura   |17-05-2011 12:43:44
A cultura ainda é restritiva, com características obsoletas.
Armando de Almirante Frid  - Mecenas...   |17-05-2011 15:23:30
Caro e dileto amigo, sobrinho e ídolo Reginaldo,

a arte sempre dependeu dos mecenas
:
"Mecenato é um termo que indica o incentivo e patrocínio de artistas e literatos, e mais
amplamente, de atividades artísticas e culturais. O termo deriva do nome de Caio Mecenas (68 a.C. -
8 a.C.), um influente conselheiro de Otávio Augusto que formou um círculo de intelectuais e
poetas, sustentando sua produção artística."
E aí você tem toda a razão, o mecenato acaba
sendo uma manifestação coronelista e ainda não inventaram uma forma melhor para bancar...
Criemos
um novo método de distribuição das verbas públicas, eu particularmente tento ser um mecenas no
site MOVESE que pretende financiar projetos culturais que não têm financiamento público.
De
qualquer forma,concordando plenamente ou não, o seu texto além de brilhante toca em pontos muito
importantes para nossa reflexão.Grande companheiro com carinho abraço.

Armando Frid
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